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Mídias digitais: quem se interessa por isso?

Além dos graves problemas de desemprego, educação e saúde, saneamento e moradia, o Coque sofre ainda por ser considerado o bairro mais violento do Recife, graças a inserção histórica na comunidade de grupos criminosos ligados, sobretudo, ao narcotráfico. A pretexto de retratar essa violência, os meios de comunicação acabam estigmatizando o bairro, chegando a retratá-lo, por exemplo, como “morada da morte” ou a referir-se, com naturalidade, à “gente perigosa do Coque”. Na tentativa de contribuir para reverter esse cenário, o Departamento de Comunicação Social da UFPE tem liderado um conjunto de ações extensionistas orientadas pela preocupação em transformar as representações sociais do Coque dentro e fora da comunidade, privilegiando, entre outras ações, a criação de estratégias de comunicação alternativas, capazes de ofertar conteúdos produzidos pelos próprios jovens. Para isso, tem investido, desde 2006, na formação crítica e na capacitação técnica de jovens do bairro (oficinas de vídeo, rádio, fanzine, fotografia, grafitagem mídias digitais etc.).

 

Embora a preocupação com a apropriação dos meios digitais pelos jovens da comunidade estivesse presente em todos os projetos de extensão executados no Coque por estudantes e professores da UFPE, ainda não foram obtidos resultados satisfatórios. Por problemas operacionais, mas, também pela falta de motivação dos jovens atendidos pelos projetos de extensão, a proposta de produção de um jornal on line e, posteriormente, de blogs com conteúdos produzidos por eles não foram levadas a termo. Com a intensificação das atividades com mídias digitais, proporcionada pela aquisição de computadores exclusivos para o projeto, será possível aferir se a falta de motivação se deve, como supomos inicialmente, a falta de familiaridade com o meio e a pouca disponibilidade de equipamentos.

 

O acesso desse jovens à rede se dá, na maioria das vezes através de lan-houses, e, por ser bastante limitado, não colabora para que eles adquiram outros hábitos de uso para além do consumo/participação em sites de relacionamento. Por limitações financeiras (gasto de energia, por exemplo), o NEIMFA não permite o acesso aos laboratórios fora do horário de aulas e, nesse horário, os jovens eram submetidos à formação básica em informática – o famoso curso de “Windows, Word, Excel e PowerPoint”. A falta de acesso em outros momentos acabou colaborando para que a oficina de mídias digitais, oferecida como parte da capacitação proposta pela UFPE, acabasse se transformando numa rara única para acesso ‘gratuito’ à internet. Diante dessa situação, tornava-se difícil exigir dos meninos do módulo avançado que produzissem conteúdo crítico para alimentar uma investida contra as representações sociais negativas da comunidade, até porque o próprio ainda não parecia maduro o suficiente para tirar proveito dessa apropriação das mídias digitais pela comunidade. Como a maioria dos jovens que participam do projeto também ainda estão passando por um processo de formação critica, é também possível que essa falta de motivação esteja relacionada ao pouco interesse na própria produção de conteúdos sobre o Coque e a partir do Coque.

 

Faço essa suposição apoiado nos comportamentos observados nas oficinas de mídias digitais que ministrei como parte das atividades de extensão da UFPE no Coque. Em todas elas foi possível observar o interesse dos jovens pelos sites de relacionamento, como Orkut, ou por ferramentas como o MSN. Convencido, porém, de que a internet é uma importante ferramenta para produzir e difundir conteúdos de grupos e/ou comunidades com pouca visibilidade (ou com graves problemas relacionados às suas representações sociais), insisti em trabalhar paralelamente com os meios digitais com um grupo de jovens mais maduros, mais inquietos, aparentemente mais motivados para buscar novas formas de expressão. Foi aí que me aproximei do Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis (MABI).

O MABI existe há oito anos e agrega seis bandas de Rock em atividade e um grupo percussivo do Coque. A idéia do movimento é se utilizar da arte para reverter o estigma da comunidade, mas sua atuação é bem mais ampla, indo desde a produção de música que incentive a reflexão crítica até intervenções na infra-estrutura do bairro. O movimento é formado predominantemente por jovens do sexo masculino, com idades que variam entre 16 e 26 anos. Alguns concluíram o ensino médio e estão agora se preparando para o vestibular, enquanto outros já desistiram dos estudos. Vários deles estudam música formalmente em instituições de ensino da cidade. E todos eles trabalham de modo informal, ou melhor, fazem “virações”, para se sustentar.

Desde 2000, quando surgiu, o MABI já realizou três festivais de médio porte no Coque, chamados Coque em Rock. O nome mais destacado a participar de uma das edições do festival foi o da banda do alto José do Pinho Faces do Subúrbio. Além desse festival, o movimento organiza um outro que acontece nas quartas-feiras de cinzas, também na comunidade, chamado Cinzas do Rock.

A “entrada” da UFPE no Coque ocorreu justamente a partir da aproximação entre jovens universitários e jovens do MABI inconformados com o modo como o bairro costumava ser tratado nas páginas policiais dos jornais e nos programas dedicados à cobertura da violência urbana nas emissoras de televisão do Estado (programas “Bronca Pesada” e “Ronda da Cidade”, por exemplo). Percebendo a necessidade de investir contra a prática e a representação da violência, jovens do MABi propuseram ao Departamento de Comunicação da UFPE, por meio dos seus estudantes, a parceria em busca da construção de um jornal comunitário capaz de ressaltar os pontos positivos do bairro. A publicação foi realizada em parceria com 28 estudantes da UFPE e 09 jovens do bairro, que também colaboraram com as pautas e com a redação do jornal.

Os jovens do MABI também foram objeto das pautas do jornal que falavam da cena musical da comunidade. Justamente nessa época, graças a um dos universitários envolvidos no jornal, os jovens do MABI entram em contato com a cena musical do Alto Zé do Pinho. O Alto é notório por ter superado uma situação de estigmatização similar à do Coque graças à sua cena cultural forte, de onde vieram bandas reconhecidas nacionalmente como a Devotos e o já citado Faces do Subúrbio. A partir de conversas com Cannibal, vocalista da Devotos e “frontman” da cena musical do Zé do Pinho, o MABI começa a vislumbrar a possibilidade de levar suas letras de denúncia social e conscientização para públicos mais amplos que a rua que servia de estúdio para o ensaio semanal das bandas. A alternativa seria tentar, a partir do contato com financiadores e editais, gravar um CD-coletânea com as bandas de Rock ativas na comunidade. Em conjunto com os universitários, eles formataram um projeto para a Lei Municipal de Incentivo À Cultura. O projeto foi aprovado pelo SIC municipal e, a partir daí, o MABI começa a amadurecer, descobre que entre a aprovação e a efetiva captação de recursos para o projeto há “muito chão”. Mas essa não foi o último contato do MABI com editais, e nem todos teriam relação com música.

Durante o processo de mobilização para a gravação do CD-Coletânea, o MABI começa a despertar para outras frentes de atuação. O movimento começava a se instigar para conseguir sede própria, cadastro de pessoa jurídica e parcerias. E foi a partir de uma parceria estabelecida com a Igreja de São Francisco de Assis – uma igreja que atuava ainda nos princípios da Teologia da Libertação dentro do Coque – que uma das novas frentes de atuação que o MABI vislumbrava começou a se concretizar. Inaugurada em junho de 2007, a Biblioteca Popular do Coque surge da articulação entre o MABI, o NEIMFA, a igreja de São Francisco de Assis e a universidade. Implantada com recursos do programa BNB de cultura, a Biblioteca tem hoje sua gestão assumida pelo MABI e por um grupo de universitários. Conta com um acervo de mais de três mil títulos e, no seu espaço, são ministradas oficinas de literatura e música para adolescentes do bairro. A instalação e gestão da Biblioteca reforçaram a crença do MABI em sua própria capacidade e vem sendo a iniciativa do grupo que mais tem dado resultados.

Estimulado por esse perfil e amadurecimento dos jovens do MABI, vislumbrei no grupo uma possibildiade de trabalho mais imediato com os meios digitais. Se, com os jovens que estavam sendo formados no curso de Agentes de Comunicação parecia necessário um trabalho de formação crítica que aliecerçaria a produção de conteúdos, com os jovens do MABI esta etapa parecia já estar vencida, pois já antevia neles o desejo ao menos para se expressar, ou seja, a motivação para produzir novos conteúdos sobre o Coque, já que esta vinha sendo a prática de parte do grupo por meio da música.

Quando, na condição de monitor do Curso de Agentes Comunicação Solidária, deparei-me com dificuldades para mobilizar os alunos para a utilização da plataforma de jornalismo on-line do Virtus, restou-me a opção de buscar outros usuários da comunidade dispostos a atuarem como ‘beta-testers’ do serviço. Naturalmente, as primeiras pessoas que me vieram à mente foram os jovens do MABI, até porque parte deles havia sido colaborador no jornal-laboratório “Coque”. A esta altura, porém, os jovens músicos do MABI, justamente os mais motivados para se expressar, estivam bastante comprometidos com o processo de captação de recursos para um CD-coletânea com as bandas do Coque e também não estavam nem um pouco próximos da maturidade que adquiririam depois com a gestão da Biblioteca. Por conta da mobilização em torno do CD, Rafael, que participou do jornal e era o mais acessível do grupo porque não participava de nenhuma banda, estava sempre por perto, no NEIMFA. Ele concordou em participar do teste da plataforma do Virtus e, juntamente com alguns dos alunos do curso de Agentes de Comunicação Solidária mais dispostos a conhecer os meios digitais, iniciamos os encontros para familiarização com a interface do programa desenvolvido pelo Virtus para produção de jornal on line (uma espécie de grande formulário eletrônico pré-diagramado). Por questões de disponibilidade dos monitores, dos jovens interessados e dos computadores do NEMFA, começamos as aulas aos sábados pela manhã na ONG. Mas, aos poucos o grupo foi se dispersando.

Bem antes do prazo previsto para a conclusão das atividades do projeto Gestão de Processos Comunicacionais no Coque (2006.2) já era notório o insucesso da primeira investida em direção à publicação de conteúdos na rede por parte dos jovens do Coque. Além dos problemas de ordem técnica – o laboratório indisponível ou sem acesso à internet, a plataforma do Virtus constantemente fora do ar –, o maior problema parecia ser a escrita: o grupo simplesmente não conseguia escrever durante os encontros tamanha a dificuldade que tinha com a redação de textos. Para estimular o grupo, desistimos de focar a produção na temática do Coque, permitindo quaisquer tipos de textos opinativos que eles pretendessem desenvolver. Resolvemos também propor que eles escrevessem ‘em casa’ e nos trouxessem os textos prontos para revisão e publicação. Já estávamos muito próximos do encerramento das atividades, e do próprio ano de 2006, e a iniciativa ainda não tinha rendido nenhum retorno, nenhum texto chegava às nossas mãos para a publicação.

 

Nesse mesmo período, Rafael me pergunta se poderia propor a mesma atividade de redação que ele e o grupo dos futuros Agentes estavam desenvolvendo para um grupo de jovens, muitos deles do MABI, que estavam passando por um processo chamado Formação Continuada numa outra ONG, a ETAPAS (Equipe Técnica de Assessoria Pesquisa e Ação Social, uma ONG que atua desde 1982 junto aos movimentos populares urbanos defendendo os direitos dos “historicamente excluídos” e buscando o fortalecimento da cidadania ativa). Também me perguntou se os textos desse grupo também poderiam ir ao ar no website do Virtus. Mesmo com a resposta afirmativa, continuamos sem ver nenhum texto chegar às mãos dos ‘monitores do sábado’, até que o prazo previsto para a atividade se encerrou. Quase um mês mais tarde, num encontro com Rafael, sou informado de que o grupo da ETAPAS produziu sim uma porção de textos, e que estavam tentando me encontrar para colocar esse material no ar.

Os textos produzidos para a plataforma de jornais on-line do Virtus não chegaram a ir ao ar, antes que pudéssemos nos reencontrar o serviço saiu do ar, ao que parece, permanentemente. Os jovens do MABI ficaram com uma série de textos “encalhados”, sem idéia do que fazer com eles. Mais algum tempo se passou até que eu fosse novamente contactado por Rafael e Procópio, que também havia participado da experiência do jornal-laboratório e, antes, estava mais envolvido com o projeto do CD que acabou por não ser viabilizado. Dessa vez, Rafael e Procópio pretendiam fazer um fanzine, mas haviam tomado conhecimento da existência dessa mídia há pouco tempo e não sabiam como utilizá-la. Rafael me perguntou se teria disponibilidade para colaborar com eles na confecção do material e, como me sentia em débito pelos textos que escreveram – mesmo com o atraso – e que, agora, estavam sem destino, resolvi cooperar.

 

Dei inicio à oficina de fanzine transmitindo noções mínimas de design: o sentido de leitura, peso visual das fontes, legibilidade de textos com ou sem serifas etc. Se as noções iniciais eram pouco convencionais para uma oficina de fanzine, a ferramenta de confecção tampouco se adequaria: optei por ensinar o grupo inteiro a diagramar o fanzine usando o software livre Scribus (uma ferramenta livre, de código-fonte aberto, para diagramação computadorizada com qualidade profissional). A minha intenção era que o material a ser produzido apresentasse um acabamento superior ao dos fanzines que circulam na cena underground Pernambucana. Desse modo, os textos ganhariam um outro status, longe do amadorismo e do estigma de conteúdo de baixa qualidade. Todo o processo foi idealizado para uma reprodução em copiadoras e, por isso, optamos por utilizar apenas uma cor. As ilustrações também priorizavam a facilidade de reprodução. Qual não foi minha surpresa ao saber que a ETAPAS, além de disponibilizar o espaço e infra-estrutura para preparação do fanzine (cedendo o laboratório de informática e bancando lanches e passagens do grupo), também iria bancar a sua impressão em gráfica.

Assim, surge o Fanzine “Desclassificados” – desclassificados porque, segundo seus autores, “não nos classificamos nos moldes tradicionais. Porque somos o contrário dos classificados dos jornais, por não nos encaixarmos. Somos desclassificados por opção, por imposição e conveniência da sociedade…” (editorial, fanzine n.1). Em sua maioria, a equipe do fanzine é compostas por jovens do MABI, mas alguns felizes acréscimos também passaram a colaborar. Por ter uma formação mais diversificada, abrigando jovens de Cavaleiro, Ibura e Camaragibe, entre outros, o fanzine adquire um tom mais universal, centrado nas lutas comuns da periferia da cidade, e cheio de vontade. À medida que o trabalho com o fanzine ia se desenvolvendo, eu percebia na instigação do grupo e o potencial para a realização da proposta de ocupação da internet que o outro grupo, abrigado no NEIMFA, ainda não havia conseguido demonstrar. Foi com esse grupo mais maduro e consciente dos “Desclassificados” que apostei numa experiência com as mídias digitais – uma experiência que envolvia sua capacitação técnica (manuseio das ferramentas e uso dos softwares) e sua sensibilização para produção/difusão de conteúdos no meio (blog, podcast).

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