
Mídias digitais: a formação de um grupo exploratório
O grupo responsável pela produção do fanzine “Desclassificados”, com o qual se deu a experiência de uso dos meios digitais aqui relatada, é composto em sua maioria por jovens do sexo masculino, com idades que variam dos dezoito aos vinte e cinco anos, sendo alguns deles integrantes também do Movimento Arrebentado Barreiras Invisíveis (MABI), do Coque. Cada um se apresenta da maneira como acha adequada Há uma predominância pelo uso dos nomes em detrimento de apelidos. Estavam presentes à sessão de entrevistas com as quais compus o perfil do grupo: Ribalta (Renato), Tony (Antoniel), Marília, Procópio, Emerson, Rato (Junior José), Rafael e Auta. Esta última (Auta) é a coordenadora do projeto junto à ETAPAS, mas também participa ativamente da produção do fanzine, exercendo as funções de redatora e revisora de textos. Completam a equipe Nataly, Anderson e Lucas, que não puderam, ou não quiseram, ser entrevistados. Quanto aos apelidos, Ribalta explica que desenvolveu o seu especificamente para uso no fanzine: “É o pseudônimo que eu criei pra primeira hipótese, soar mais legal, segunda hipótese, pro nome significar algo interessante e terceira hipótese é pra fugir de represálias, pra me abster da minha pessoa física, eu acho que o que menos importa nos meus textos é o meu nome.”. Já Rato e Tony apenas assinam com os nomes que lhes foram atribuídos há tempos por amigos.
À exceção de Rafael, que cursa o terceiro ano, todos eles têm o ensino médio completo, e são, inclusive, bastante críticos quanto à qualidade do ensino que receberam. É o que evidencia, por exemplo, a fala de Rato, quando questionado sobre sua escolaridade: “eu acho que é segundo grau completo, né?” Procópio (” segundo grau no ensino público”) e Ribalta (“tive o ensino médio concluído na escola José Emerenciano, que teve a vil classificação de estar como a segunda pior escola do Brasil em pesquisa recente feita pelo MEC”) também dão exemplos dessa consciência de seu ponto de partida acadêmico desprivilegiado. Apenas Auta passou por formação em colégio particular. Ela e Tony também são os únicos que deram continuidade aos estudos, Auta é formada em pedagogia pela UFPE e cursa agora, “aos trancos e barrancos”, uma pós-graduação na FAFIRE. Tony cursava o quarto ano de magistério, mas foi obrigado a optar pelo trabalho: vai ser pai em breve.
Metade do grupo mora, ou morou, no Coque. Os que não moram no bairro são: Marília, moradora de Camaragibe; Ribalta, morador do “Ibura” (“Ibura não, Três carneiros… essa idéia chauvinista de bairrismo, né?”), Emerson, morador de Cavaleiro, e Auta, que não informou o lugar em que reside. A ETAPAS foi a grande responsável pela reunião desses jovens, como nos conta Ribalta: “Essa gambiarra, esse hibridismo, se deu a partir de 2006 aqui na ETAPAS, a partir do curso de formação continuada que a mesma disponibiliza pra juventude aqui do Recife. E através dela eu conheci varias pessoas daqui e conheci os lugares onde elas moram. A partir de um programa do curso chamado habitalidade, a gente conheceu seis comunidades onde cada jovem morava. Daí eu saí conhecendo o Coque, Caranguejo (Uçá), Ibura e tal. E daí conheci a turma do Coque, Marília que é de Camaragibe; Emerson, que é de Cavaleiro. Através dele eu conheci diversas comunidades do Recife, coisa que antes eu dava as costas pro meu Recife e agora eu estou mais a par do que acontece nas comunidades”.
O curso “Formação Continuada”, citado por Ribalta, foi proposto em 2004 pela ETAPAS como uma iniciativa trienal de formação política e profissional. Desde 1992 a ETAPAS, a pedido dos movimentos sociais com quem já trabalhava, desenvolvia junto à juventude projetos de formação política e profissionalizante. Ao longo do tempo, a perspectiva da formação profissional foi sendo relegada a segundo plano ao mesmo tempo em que a instituição se centrava cada vez mais na formação política. O Formação Continuada englobava três turmas diferentes, uma a cada ano, e trazia dentro da proposta de formação política a perspectiva da multiplicação social.
O retorno que os jovens deram à proposta da multiplicação social foi tão positivo que levou a ETAPAS a formular um novo projeto exclusivamente para apoiar organizações juvenis, “coletivos juvenis” – como diz Auta – que desenvolvessem ações dentro de suas comunidades. Os primeiros beneficiários da proposta foram os jovens egressos da própria formação continuada: “Já no ano de 2005 tinha um grupo que queria continuar a desenvolver suas ações de multiplicação social a partir do teatro, que é o Continuarte, o grupo de teatro e dança popular. No ano de 2006, tinha um outro grupo que tinha já uma ligação com comunicação por conta de outras iniciativas que eles tinham participado em outros lugares. Esses meninos já trabalhavam com comunicação lá no Coque e eles quiseram fazer alguma coisa ligada a comunicação social, mas que estivesse ligada à comunidade. E aí acabaram envolvendo outros jovens também que não tinham necessariamente experiência com isso. E juntos eles resolveram começar com essas idéias de comunicação, e que foi evoluindo pra outras coisas também”, diz Auta.
A experiência com comunicação lá no Coque a que se referiu Auta foi justamente a produção do jornal-laboratório da UFPE, no qual Procópio e Rafael haviam atuado como colaboradores. Quando a proposta do jornal virtual foi se desdobrando da do grupo de jovens do Curso de Formação dos Agentes de Comunicação no NEIMFA (a partir de projeto de extensão da UFPE) para o MABI e, deles, para o pessoal da formação no ETAPAS, o grupo encontrou o estímulo que faltava para começar a produção dos textos. Originalmente, a proposta dos futuros “desclassificados” foi apresentada como a construção de um fanzine atrelada a “um site” (a plataforma de jornalismo on-line do Virtus), mas, quando a publicação no site se mostrou impossível, o fanzine tornou-se o destino dos conteúdos produzidos. Estive envolvido em todo esse processo como um dos orientadores das atividades, a partir do contato já estabelecido com Rafael e Procópio nas atividades extensionistas no Coque.
É importante observar que, entre esses jovens com os quais passei a trabalhar na produção de conteúdos, o contato com movimentos ou projetos sociais era recorrente, geralmente como “público-alvo” das ações. Auta é exceção. Destaca-se por ter começado já atuando como capacitadora. Depois de sua entrada na universidade no curso de pedagogia, foi estagiária da ETAPAS e, logo depois, foi contratada para coordenar o projeto de Formação Continuada. Do Coque, apenas Procópio e Rafael passaram pelo curso de formação de agentes de desenvolvimento comunitário do NEIMFA (“por três anos”, diz Procópio). Rato nunca havia tido contato com movimentos sociais e conta que chegou à ETAPAS como visitante, a convite de Procópio, e acabou ficando. Ele também havia participado como colaborador no jornal-laboratório “Coque”. Ribalta passava pela formação em artes gráficas do CTC (“que apesar do nome ser de artes gráfica e ser para encaminhar para o mercado mais técnico, mais profissional, o curso tinha, não, tem uma pegada com o social muito interessante”). Marília afirma ter passado por diversos projetos (“porque eu gosto muito de entrar nessas coisas de cursos, de projeto”) mas não citou nenhum deles. Sobre sua entrada no curso de formação continuada ela conta que: “eu nem sabia que existia ETAPAS, [...] aí um amigo meu foi lá em casa e disse: “olha tem um curso pra gente fazer, lá na cidade”, (eu) nem andava muito pela cidade, por aqui por Recife. Aí ele “vamo”, eu, “Bora”. Aí eu cheguei, conheci as pessoas, eu gostei, e agora com o fanzine Desclassificados, também estou gostando e espero continuar.”
Sobre seus contatos com a informática, eles relatam terem passado por cursos de informática básica, frequentemente mais de um. O campeão em citações é o curso oferecido pela deputada Malba Lucena, ainda que as menções não enalteçam a qualidade do curso ou seu perfil ideológico (“o computador tinha muito do simbolismo do imponderável, né? Ficavam duas pessoas na frente do computador de uma forma passiva, passiva mesmo, eles não ensinavam nada, não mostravam como era a estrutura, não tinha a história do computador, como surgiu, era justamente essa coisa técnica, de preparar para o secretariado, de ficar enfurnado em uma sala”, relata Ribalta). A prática mais comum era a de saltar de curso em curso em intervalo de poucos meses. Curioso é que a própria ETAPAS iniciou seus projetos com a juventude oferecendo cursos de informática voltados para a capacitação para o trabalho, num projeto chamado Juventude e Cidadania.
Já a internet eles dizem “namorar”, no mínimo, desde 2004, acessando da casa de amigos ou dos cursos de informática que faziam. Apesar do significativo tempo de uso, eles não se consideram familiarizados. “A internet é complicada pra quem não sabe usar”, diz Emerson. Na época dos primeiros contatos com a internet, a motivação geralmente era a possibilidade de conversar nos chats. Tony conta que: “Eu via meus amigos batendo papo e eu ficava curioso, querendo saber: “meu irmão, vocês tão fazendo o que? O que é isso meu irmão?” “Não pô, a ente ta falando com uma nega aqui” “falando com uma nega?” Entendesse? Eu ficava naquela onda, e eu como era leigo ficava “oxe, meu irmão, e é mesmo é?”. Dessa época para os dias de hoje o contato não se ampliou muito, seja por falta de oportunidade, seja por falta de “traquejo” (como diz Auta). A ETAPAS acabou se tornando um ponto de acesso para muitos deles, que utilizam livremente o espaço da ONG para checar e-mails, ouvir músicas e trocar mensagens no Orkut. Caso especial é o de Rato que, até se incorporar à equipe do fanzine, nunca havia utilizado a internet. Ele comenta que” é algo novo, desconhecido, tô aprendendo a usar agora, não tenho tanta experiência. Tá sendo gostoso, tá sendo interessante.”
Os hábitos de uso recém-adquiridos de Rato são “checar o e-mail, escrever os textos do fanzine e olhar aquele lance da (agência de notícias) Carta Maior, que eu gostei muito”. Coincidentemente, mas não de modo inexplicável, os demais membros do grupo também fazem um uso bastante dirigido da internet: a maioria utiliza o google para realizar alguma pesquisa, o Orkut e o MSN para conversações, a agência de notícias Carta maior para conferir algumas notícias e serviços de e-mail (distribuídos entre contas da Google e da Microsoft), o acesso a pornografia foi citado diretamente em apenas um dos depoimentos. A wikipédia foi mencionada por Ribalta e Procópio. É Procópio quem, ao falar de seus usos, sintetiza os hábitos de navegação do grupo: “Na internet, eu entro pra ler e-mail e pra pesquisar; entro no Google, dou uma olhada em alguma coisa que eu esteja lendo no momento pra ver se tem alguma coisa diferente do livro, depois vou na wikipédia, depois volto pro e-mail, não vou muito longe não. Eu não navego, não dou muitas braçadas na internet, não”.
O contato semanal com o grupo do “Desclassificados”, durante oito meses, me levou a enxergar em alguns deles um grau de dedicação, de comprometimento, no desenvolvimento do fanzine que eu não havia percebido nos dois momentos de formação anteriores junto ao grupo do curso de Formação de Agentes de Comunicação Solidária (a oficina de produção de textos para o jornal on-line do Virtus e, depois, a oficina de mídias digitais). Eu pude ver como, ao longo de alguns meses, eles já haviam se transformado em uma micro-redação alternativa, onde cada um assumia voluntariamente uma função, fosse de redator, revisor ou diagramador dos textos. O processo de elaboração do primeiro fanzine foi bastante lento (levou em torno três meses), mas, mesmo assim, o grupo não desanimou, continuou escrevendo e logo que a primeira edição saiu já havia material de sobra para uma segunda e até uma terceira publicações. A qualidade técnica também evoluiu de uma edição para a outra, o que sinalizava que ao menos o ‘diagramador oficial’, Rafael, vinha se dedicando a conhecer melhor a ferramenta de edição, a partir das instruções que recebera. O restante do grupo também havia se adaptado bem ao uso do serviço de composição de textos on-line do Google, uma alternativa para disponibilizar os textos a todos e, ‘de quebra’, solucionar o problema que se apresentava a cada manutenção de computador na ETAPAS, ou até mesmo quando um dos jovens saia do “seu” computador habitual. Apesar das condições favoráveis oferecidas pela ETAPAS e do interesse do grupo na produção de conteúdos, a apropriação dos meios digitais não ocorreu como esperado. Basicamente, o meio digital foi utilizado para “transpor” o conteúdo do fanzine anteriormente produzido.