
Mídias digitais: a experiência com os “Desclassificados”.
A cada encontro com o grupo, que se auto-denominou “Desclassificados”, os jovens iam se inserindo mais e mais na ‘cibercultura’, iam vivenciando a internet, e o próprio computador, de uma maneira diferente. Essa vivência nova da internet e do computador é algo que eu não esperava. Em princípio, quando me dispus a viver com eles uma experiência de apropriação dos meios digitais para produção/difusão de conteúdos, apostava em deslumbre imediato com as novas ferramentas. Minha perspectiva, devo confessar, era bem tecnicista mesmo: “dê as ferramentas e tudo o mais está posto”. Acreditava que eles já tinham algum tempo de uso da internet, ainda que um uso unidirecional – numa modalidade de consumidores – como é, aliás, comum à grande maioria dos usuários da internet; um uso limitado também aos websites acessados, pautados por outros veículos de comunicação e pelo desinteresse inocente por uma realidade que se mostra muito mais ampla. Apostava, então, em outro tipo de uso; um uso mais competente, capaz de resolver problemas que surgissem à medida que uma navegação mais de “pilhagem” (uma navegação desinteressada, sem um propósito bem definido), como define Levy, fosse se delineando.
Dos relatos que faço a seguir, quase um “diário de campo”, pode-se inferir o curso dessa experiência. Desde o início eu devia ter desconfiado mais da falta de perguntas e da falta de dúvidas entre o grupo. Eu não conhecia os meninos e não entendi que o silêncio poderia revelar desconfiança ou desinteresse e não a perfeita compreensão. Talvez por ser um caminho mais fácil, pressupus que eles tinham alguma desenvoltura com a internet em função do uso que eles faziam do Orkut e de ferramentas similares. O fanzine era desenvolvido no laboratório de informática da ETAPAS, uma sala ampla com algo em torno de vinte computadores rodando o Windows, com ar-condicionado. O ambiente era bastante tranqüilo, com lanche e vales-transporte para os meninos (que algumas vezes os meninos revertiam em dinheiro para si). Tenho certeza que a ida até a ETAPAS não era nenhum sacrifício e, dado o número de atividades que eles mesmos criavam e sugeriam à ONG, realmente fica difícil acreditar que fosse. O relato que faço dos nosso principais encontros parece ser mais revelador do que uma eventual conclusão fechada que venha a propor sobre o que experimentamos.
“Primeiro” Contato
Eu já vinha acompanhando o processo de confecção do fanzine – desde a oficina de diagramação – e achava que seria uma oportunidade interessante para os meninos a publicação de conteúdo na internet como estratégia de visibilidade para eles próprios e para suas comunidades. O agendamento positivo que havíamos conseguido com as ações extensionistas desenvolvidas no Coque até então sempre me deixaram com uma sensação de que faltava algo. Contribuir para um agendamento mais positivo do Coque, inclusive na própria rede (por meio de noticias e publicações em blogs e portais), não é de maneira nenhuma o mesmo que dar voz à comunidade, há ainda o processo de mediação, um gatekeeping a ser vencido. No fim das contas, não é a própria comunidade quem decide o quê (e quando) é “notícia”. Sempre me perguntei por que eles nunca atinaram para a possibilidade de disponibilizar os conteúdos que vinham produzindo na internet e pensei que seria interessante tentar uma apropriação da internet pelo grupo que já vinha com bastante sucesso produzindo textos para um veículo de comunicação alternativo impresso. Minha hipótese era a de que, vencida a barreira da escrita propriamente dita, não haveriam muitas outras – e nenhuma tão forte – a serem vencidas. Decidi, então, que essa seria uma boa experiência a ser vivida no momento em que, concluindo o curso de Comunicação na UFPE (habilitação em Radialismo), sentia-me tão motivado para explorar a relação entre internet e movimentos sociais. Mandei e-mail de súbito para a ETAPAS, prestes a entregar o anteprojeto do meu Trabalho de Conclusão de Curso – TCC), perguntando a disponibilidade do pessoal em participar do meu trabalho. Fiquei muito satisfeito com a adesão “sem questionamentos”.
O encontro
Fui ao “segundo encontro” depois de propor que o grupo “se tornasse” objeto do meu projeto de Conclusão de Curso. Fui preparado para responder a uma série de perguntas. Não respondi tantas assim. Quando cheguei a ETAPAS o grupo estava reunido para uma correção coletiva dos textos que entrariam para o próximo fanzine; um colega do grupo, que cursava Letras, conduzia a correção. Nos reunimos na mesma salinha onde se dava a correção – ”longe da dispersão do laboratório”, alguém falou – e eu contei com mais detalhes o que era a minha proposta: montar um produto digital, preferencialmente um podcast com o grupo, num modelo ainda sem definição. Auta – a coordenadora pedagógica do projeto do fanzine – pareceu bastante empolgada com a proposta, apesar de “não conhecer nada”, somente pela possibilidade de usar um outro espaço que os meninos poderiam manter com mais autonomia. O restante do grupo oscilou entre algo que me pareceu interesse pelo desconhecido e um certo receio. Eles não pareceram, a princípio, ver muitas possibilidades de sucesso. Fiquei então de repassar o anteprojeto para todos pelo e-mail – o grupo nunca criou uma lista de e-mails, tenho a impressão de que acham complicado –, assim eles poderiam conferir os detalhes. Acreditava que era importante disponibilizar o anteprojeto não pela informação que pudesse estar ali contida, não havia nada que eu não pudesse repassar oralmente, e sim pelo sentimento de confiança mútua que deveria gerar.
16 de agosto
Nosso terceiro encontro ainda tinha o fanzine como foco. Em um dos intervalos, quando todos seguiam para o quintal da Etapas para o lanche, me solicitaram que apresentasse o projeto. Já havia encaminhado para todos através do e-mail, mas apenas Auta havia lido. Explico novamente a proposta, novas questões surgem, algumas presenças novas também. O ambiente da ETAPAS sempre foi muito aberto com relação ao grupo dos “Desclassificados”, os meninos se deslocam voluntariamente para lá e cumprem com metas que eles mesmos estabelecem. Um processo de organização mais formalizado foi tentado uma vez com o mesmo grupo do fanzine mas não vingou. Também agora, nessa nova experiência, a presença ou ausência seria regulada pela vontade e por compromissos pessoais diversos: emprego, vestibular, serviços domésticos etc. Nesse encontro, o entendimento da proposta pareceu mais claro e foi feita uma votação de adesão ao projeto. Todos concordaram em participar e resolveram criar horários separados para as atividades do fanzine e as atividades do podcast, ao menos no período de treinamento. As dúvidas giraram em torno das condições técnicas de operacionalizar o projeto (“Precisa de microfones”? “Tem que ter dinheiro”? “Os computadores daqui conseguem fazer isso”? “Tem que ter algum programa”?).
27 de Agosto
Devido a um encontro cancelado anteriormente o audacity (um software livre para edição de áudio) já estava instalado em todos os micros, dessa vez só nos coube a tarefa de executar o programa. A etapas tem uma equipe de assistência técnica terceirizada que periodicamente faz a manutenção nos computadores (não foi incomum nesses meses encontrar computadores que estavam funcionando parados, arquivos importantes deletados ou programas essenciais desinstalados; claro, eles também instalaram os programas solicitados, “ressuscitaram” outros computadores e resolveram bugs. Mas, no geral, voltávamos à estaca zero uma vez por mês, até sair a orientação de que pelo menos um dos computadores deveria ficar intocado – era “o computador do fanzine”. Em princípio, apenas Procópio se interessou pelo programa e acompanhou a apresentação e manuseio do programa (perdi a disputa para a internet). Este foi o primeiro encontro “prático” e durou pouquíssimo tempo: tivemos problemas com o áudio. Justamente aqueles problemas que o grupo acreditava que poderiam acontecer, e que eu esperava que não acontecessem. Dediquei o restante do tempo do encontro para resolver o problema de áudio. Procópio continuou comigo, tentando solucionar o problema, enquanto o restante do grupo dispersou e foi navegar na internet (acessar Orkut; MSN; procurar músicas) ou adiantar os textos do próximo fanzine.
3 de setembro
Para esse encontro eu resolvi coletar algum material de referência para disponibilizar para o grupo. Procurei um pouco e encontrei (no estúdio livre) um manual interessante do Audacity, com algumas informações sobre formatos de áudio e edição. Chego a ONG ETAPAs com a primeira parte do manual do Audacity, pretendia pedir que Auta xerocasse para o grupo, mas ela não estava presente. O manual estava em html, do mesmo modo como o extraí, e eu penso que seria mais interessante disponibilizar uma versão mais organizada em .pdf. Levo então o manual de volta, sem disponibilizá-lo.
10 de setembro
Preparei para este encontro o manual em .pdf do Audacity, um pouco mais estruturado que o original em html. Infelizmente, o manual estava totalmente em inglês e eles não poderiam ler assim, só eu não tinha me dado conta de que a língua ia ser um empecilho no projeto. Para que eles pudessem usufruir do manual e o projeto pudesse prosseguir, eu mesmo resolvi traduzir o material – encontrar um manual adequado já foi complicado; encontrar um outro, adequado e em português, seria demais.
17 de setembro
Enquanto estava na tarefa de traduzir o manual do Audacity para o português continuei com as buscas por um material já pronto que pudesse me poupar tempo. Na comunidade do Audacity, no Orkut, encontrei algo que não era exatamente o que eu procurava, mas podia resolver. Na verdade, podia ser ainda melhor que o material escrito: encontrei videoaulas disponíveis no youtube. A essa altura eu traduzira apenas a primeira parte do manual, referente às características do som no meio digital e à descrição das ferramentas. Anotei o link das videoaulas e rumei para a Etapas.
Enquanto eu não dava as caras, o pessoal estava dispersando na internet. Eu chego e convido a todos pra assistir às videoaulas do Audacity: adesão geral! Após algumas aulas Rafael perde o interesse e volta à diagramação da segunda edição do Zine. Os outros assistem. Mais algumas videoaulas e Nataly pergunta se faremos uma “gravação nossa”, respondi afirmativamente, agora parecia que alguma chave havia se ligado, sua segunda pergunta é ela mesma quem responde: “e como é que tu vai colocar pras pessoas ouvirem? …vai botar na internet, é? Que legal!”. Daí alguém pergunta se ela leu as cópias xerográficas que eu havia disponibilizado, dois ou três encontros antes, sobre podcast (trechos da revista Info, uma edição especial, sobre blogs, podcast Rss e afins), ela responde que não. A resposta dela parece esclarecer tudo para o resto do grupo, ela está “por fora”.
No final do encontro Marília me pede o link das videoaulas pra “ver em casa”. Repasso o link e mostro como chegar até ele a partir do perfil do orkut, no caso de ela perder a anotação. Como “tarefa de casa” peço pra eles pensarem em formatos de programas que queiram produzir. A decisão deve ficar totalmente por conta deles, dou como exemplo de programas possíveis: uma “transcrição” do fanzine; um programa temático sobre assunto à escolha; um programa de entrevistas; uma rádio-novela ou até mesmo uma seleção de músicas interessantes. Já havia solicitado que pensassem no que produzir antes, para não deixar essa decisão para um momento onde o tempo estaria mais escasso. Dessa vez, eles parecem mais empolgados, parecem estar mais familiarizados com o Audacity.
Já na saída da Etapas, Emerson conversa comigo: ele afirma que até aquele momento não tinha entendido o que seria o projeto – as explicações que eu dei não deixaram claro o suficiente, mas não me disse o quê não estava claro o suficiente. Ele, no entanto, parecia achar a proposta interessante e ele resolveu apostar na idéia. Por trás dessa adoção incondicional do projeto estão os vínculos do grupo – a maioria era de um projeto anterior da ETAPAS de formação política – e o incentivo de Auta, que vê algum potencial no uso da rede, ainda que ela mesma não tenha esse “traquejo”.
24 de setembro
Os meninos estavam cuidando de seus afazeres quando eu apresentei as videoaulas do audacity para Auta. Ela achou legal, e só. Marília disse que olhou o site na lan-house, mas que não assistiu ao vídeo porque tinha colocado apenas meia hora uso.
Procópio e Lucas assistiram às aulas sem nenhum problema, apesar de não demonstrarem nenhuma empolgação adicional. Eu, ao contrário, esperava uma afiliação imediata, que eles pudessem enxergar fácil, porque pra mim estava claro, o potencial daquela ferramenta para o trabalho que eles vinham realizando no MA BI. Não comentaram nada entre as aulas, mas assistiram totalmente por conta própria – isso quer dizer que eu, na verdade, pude concentrar minha atenção em instalar o Scribus, um software de editoração eletrônica de textos. Procópio assistiu até a quarta videoaula (eram sete), depois foram tomar um chá, dispersaram no retorno.
Decorridas cinco aulas, Lucas me pergunta se as aulas estão na internet – ele estava assistindo diretamente do youtube, em tela cheia. Lucas não é dos que mais utiliza a internet, mas entre os usos que costuma fazer está justamente assistir vídeos, seja no youtube diretamente, seja através de ‘atalhos’ no Orkut. A tela cheia oculta os indicadores do navegador da internet – modifica a interface, talvez daí tenha vindo a pergunta.
Em seguida, Apresentei rapidamente o “banco de música” do Creative Commons (www.ccmixter.org) a Lucas, Procópio e Nataly. Minha intenção era que o banco servisse como um repositório de samples para compor as vinhetas e, quem sabe, músicas de autoria dos próprios membros, já que nem todos tinham habilidade com instrumentos musicais. Nataly não pareceu empolgada com o serviço – talvez pelo conteúdo estar todo em inglês, talvez por não ter nenhuma experiência prévia com o mundo da produção de música –, mas ficou de “dar uma olhada” depois e apresentar aos seus companheiros de grupo (Emerson e Marília). À época eu não sabia da existência de uma versão nacional, em português, abrigada sob a comunidade do Overmundo (overmixter), e minha estratégia de acesso ao website foi a de sugerir aos meninos que memorizassem a trajetória até o ‘banco de música’, bem como o procedimento para download das peças. Procópio e Lucas vislumbraram mais usos para o Audacity, a partir dessa experiência, inclusive a possibilidade de mixar o CD da banda – já que eles têm as gravações separadas por canal à disposição.
Lucas perguntou se o PC já tinha o encoder para mp3 (um arquivo necessário para converter as músicas para o formato mp3), ele foi o único a se importar com esse detalhe, ainda que uma das videoaulas tenha se detido por um momento em explicar onde e como obter este encoder e qual a sua importância – provavelmente por ser dos poucos que percebeu uma aplicação para o software.
1 de outubro
Quando cheguei as pessoas lanchavam e, enquanto isso, discutiam a participação em um evento sobre educação e emprego – mais uma ação incentivada por Auta, ela quem trazia os eventos numa perspectiva que me parecia de continuar com a “formação continuada” (com o perdão do trocadilho), da qual os jovens eram egressos. Logo depois do lanche os jovens voltaram ao laboratório: Tony escrevia, Emerson escrevia, Anderson e Marília estavam no Orkut e Nataly, confesso, não tive como observar o que fazia.
Marília me falou que no seu computador não funcionava o vídeo do youtube, fui conferir. Descobri que faltava o flash player (um plugin para exibição de vídeo nos browsers), como não tinha acesso ao sistema em condições de administrador a alternativa foi deslocar Marília e Anderson para um outro computador. Os dois assistiram as videoaulas até que Marília abandonou o computador para fazer sua inscrição no evento – aquele que Auta acabara de apresentar. Anderson continuou assistindo as videoaulas, sozinho por um tempo e depois recebeu a companhia de Nataly.
Quando não encontraram o link para a última das videoaulas entre os vídeos ’similares’ que o youtube disponibiliza, fui novamente solicitado. Redirecionei o browser para o perfil do usuário que disponibilizou as videoaulas. Foi Nataly quem, ao “descobrir” que alguém disponibilizava esse conteúdo, levantou a questão do retorno para o indivíduo que gravou as aulas. Ela ficou encantada ao descobrir que o autor (que nesse caso era também o responsável pela disponibilização do conteúdo) “não ganhava nada”, fazia aquilo “só para ser legal” (sic). Perdi a chance de uma discussão sobre “cultura livre”, mas não senti que renderia para além dos meus comentários.
8 de outubro
O grupo já me aguardava, visitando o Orkut, redigindo material para o fanzine ou procurando por músicas na internet (para ouvir, não para baixar). Propus que eles exercitassem novamente o que viram nas videoaulas do Audacity. Eles propuseram fazer a atividade em duplas – ótima solução dado o limitado número de computadores e o orientador único. Perdi bastante tempo tentando fazer com que meu gravador fosse reconhecido pela porta USB de um dos computadores, e acabei sem poder utilizar os arquivos de áudio que havia levado para que eles treinassem. Optei por um exercício diferente: Eles deveriam: 1) fazer uma “limpeza” em uma entrevista qualquer, deixando apenas uma das vozes; 2 deveriam compor uma música com áudios retirados do CCmixter (era parte da tarefa, inclusive, encontrar e baixar os trechos de áudio que fossem utilizar).
Com alguma demora, e muito esforço para lembrar dos comandos; para criar as peças, ao fim da aula, já havia capelas sincronizadas com uma, duas trilhas de áudio de curta duração. A atividade pareceu divertir o grupo, Anderson comentou que o irmão trabalhava com áudio (fazendo anúncios de pequenos comerciantes) e ele finalmente havia “entendido como ele fazia”. Ao fim desse encontro o grupo já havia tido contato com as ferramentas técnicas necessárias ao desenvolvimento do podcast. Cabia agora a resolução do formato e as gravações.
Marília e Anderson assumiram para si a tarefa propor o formato. A essa altura o vestibular, cada vez mais próximo, já começava a afetar a presença do grupo. Vez por outra também uma mudança no horário de trabalho ou um emprego temporário acabavam por impedir a participação efetiva.
Este foi o meu último encontro presencial com o grupo, a partir deste dia até 26 de novembro o contato foi mantido apenas através de e-mail. Com as ferramentas nas mãos e com a proposta bem, entendida, havia chegado a hora de deixar o grupo trabalhar sozinho para aferir sua autonomia, motivação e a desenvoltura do grupo em sua ocupação do mundo virtual. Pelo serviço de Messenger eu soube que o grupo havia decidido um formato a trabalhar e que faltava agora selecionar e gravar as peças que comporiam a abertura e o programa propriamente ditos. Apenas lembrei a todos que o material do Ccmixter poderia ser uma fonte interessante e que programas de rádio tradicionais também poderiam ser uma boa fonte de inspiração.
Enquanto estive ausente, os “Desclassificados” entraram em contato com um outro grupo de estudantes que estavam interessados na montagem de um fanzine, Dessa nova relação, e já sem minha orientação, surgiu o blog dos “Desclassificados”. O blog foi apresentado como uma alternativa do novo grupo que não tinha experiência nem recursos para a impressão do material. Os jovens do “Desclassificados” viram o blog e decidiram montar um próprio. O blog ficou sob cuidado de Marília, que começou a postar os textos das edições anteriores do fanzine impresso. Pouco depois perceberam que o endereço do blog era muito extenso e que seria interessante diminuir o endereço para facilitar o acesso.
Marília narra o momento em que ela e Nataly estavam navegando na internet e resolveram procurar por blogs: “eu saí clicando lá e apareceu um negócio de cadastro pra colocar o e-mail, eu coloquei o e-mail dos “Desclassificados” lá e fui vendo”. Nataly desistiu do blog pouco depois e coube a Marília manter a publicação. Ela também conta que ao ser informado da construção do blog, o restante do grupo pareceu bastante satisfeito com a iniciativa, mas ninguém, além dela, mobilizou-se para a manutenção do espaço. Parece sintomático que um determinado membro seja “eleito” para lidar com determinada tecnologia e os demais se dêem por satisfeitos com o desempenho “do grupo”, assim, Rafael é o diagramador oficial (apesar de todos terem passado pelo processo de “treinamento” com o Scribus). Do mesmo modo, parece ser Procópio, e em sua ausência Marília ou Anderson, quem deve se responsabilizar por compreender e gerir o podcast.
Mais um contato que uma apropriação: um final em aberto
O que dizer, afinal, dessa experiência? Para começar, é importante indicar que ela apenas começou e não se esgota em um Trabalho de Conclusão do Curso de Comunicação. O caminho foi apenas aberto para uma intervenção que, incorporada as ações extensionistas da UFPE, a partir do Coque, deve ser ainda mais analisada e aprofundada. A apropriação dos meios digitais pelo grupo de jovens do “Desclasssficados, de fato, não ocorreu.. As explicações para isso podem estar relacionadas a vários fatores:
1) a falta do retorno já verificado nas distribuições do fanzine impresso – nesse caso, talvez os comentários no blog, a partir das estratégias que desenvolverem para adquirir visibilidade, seja capaz de ativar o ciclo de retroalimentações entre publicações e retornos.
2) a carência de uma subjetividade independente e autônoma. A “necessidade” de que “alguém” lhes diga o que fazer é apontada por Auta como catalisadora de um processo de desmotivação quando da ausência dessa “autoridade certificadora”. A autonomia só aparece como fruto de uma segurança na capacidade de desenvolver as atividades por conta própria. É possível que minha saída para a ordenação autônoma do grupo tenha sido prematura, ocasionando uma “falta de chão”ao grupo no tocante à sua atuação nos espaços virtuais. É nesse momento que o grupo decide focar a atenção na produção à qual já está habituado e para a qual já tem respaldo público.
3) A “vida real” também tem um peso significativo sobre a disposição e a capacidade de mobilização do grupo. Em uma oficina sobre mídias digitais, oferecida agora a jovens universitários, como parte do Programa de Formação de Agentes de Mediação Sociocultural (UFPE, MEC/SESu/Depem), Luiz Carlos Costa, estudioso do ativismo digital, lembrou que todos os processos do virtual têm um “pé na lama”, isto é, partem do real. ´Sua declaração pode ser entendida não apenas como reveladora da necessidade de uma motivação social para uma intervenção na rede – a consciência de sua importância na luta por visibilidade, por exemplo –, mas também como um indicado das limitações impostas pela própria condição social dos jovens da periferia. Esse tipo de jovem encontra-se, certamente, mais suscetível a “intempéries” que grupos ativistas digitais mais “tradicionais” – oriundos da classe média. Entre os jovens ativistas na classe média não se conceberia, por exemplo, a ausência a uma atividade coletiva em rede por falta de passagens, a presença “interesseira” para usufruir da internet para fins pessoais (afinal, eles têm conexão em casa) ou até mesmo o abandono do processo por conta de um pré-vestibular gratuito. É preciso, portanto, considerar na avaliação do interesse dos jovens da periferia pela rede todos esses elementos contextuais.
No final dos dez meses em que convivi com jovens ligados a movimentos sociais na ETAPAS, tudo que foi colocado no ar foi um blog. Poderia ser muito significativo se o blog que os “Desclassificados” colocaram no ar não fosse tão somente uma transposição do conteúdo do fanzine, e não um blog propriamente dito. Em conversa telefônica, Marília conta que o outro blog – com o endereço mais acessível – ainda não foi ao ar por não contar com as versões para leitura do fanzine em formato .pdf. Como o grupo delegou a um dos membros a função de diagramador e se absteve de utilizar o software ao longo dos últimos meses, instala-se uma situação de dependência baseada numa lógica do menos esforço: ninguém se mobiliza para re-diagramar o conteúdo (que pode significar ter de reaprender a lidar com o software). Mais que “preguiça”, essa desmotivação parece apontar para a falta de expectativas com o meio, como já comentei, possivelmente causada pela ausência de um retorno similar ao do fanzine impresso.
De tudo, uma constatação ineqüívoca. Repassar conteúdos é relativamente fácil, educar exige algum, considerável, esforço, mas “formar” – intervir profundamente em subjetividades – é ainda mais trabalhoso, e está submetido à abundância de dois bens que o processo educativo tradicional não disponibiliza: tempo e vínculo. Os exemplos bem-sucedidos de intervenções nos meios digitais (por exemplo: a metareciclagem) partem justamente de um processo de formação de comunidades e construção coletiva a longo prazo, que parece possibilitar a emergência dessa valoração das trocas coletivas que Rheingold, Levy e Castells evidenciam