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Internet e movimento social: mídia tática, mídia radical, midiativismo?

A crítica mais sistemática aos modelos de comunicação vigentes encontrou abrigo nos chamados “novos movimentos sociais”, movimentos orientados no sentido de resistir às múltiplas fontes de opressão identificados originalmente pelo anarquismo socialista e feminista e que, na verdade, sempre atuaram em paralelo aos movimentos sociais tradicionais. Esses movimentos consideram que as desigualdades econômicas não são responsáveis por todas as demais formas de desigualdade entre os seres humanos. Por isso, enfatizam a importância das dinâmicas socioculturais na sua compreensão dos meios. São movimentos que “visavam objetivos que em grande parte independiam do que o Estado podia conceder – objetivos que guardavam uma relação muito mais próxima com um senso de crescimento e identidade pessoais em interação com a subcultura do movimento” (Downing 2002 p.57). Entre as diferenças entre os novos movimentos sociais e os antigos, mais tradicionais, parece importante destacar que: “existe uma outra idéia de hierarquia entre esses movimentos, nas relações entre as pessoas que fazem esses movimentos, existe uma outra forma de relacionamento com as comunidades com as quais eles se relacionam ou pelas quais eles lutam. Existe uma procura muito grande por estabelecer formas autônomas de representação” (Luiz C. Costa, em aula ministrada na oficina sobre mídias digitais, Programa de Formação de Agentes de Mediação Sociocultural (UFPE, MEC/SESu/Depem, novembro de 2007). ).

Essas formas autônomas de representação surgem da necessidade de compartilhar as experiências de resistências às “múltiplas formas de opressão” (Downing 2002 p.53) – étnicas, religiosas, etc. A forma encontrada pelos novos movimentos sociais para articular esses diversos diálogos, diante de uma mídia hegemônica que não lhes dá voz, foi o desenvolvimento de mídias próprias, alternativas, radicais. Trata-se aqui de mídias radicais, mais que alternativas, porque, em certa medida, tudo é alternativo a alguma outra coisa. Segundo Downing, “a mídia radical alternativa geralmente serve a dois propósitos precedentes: a) expressar verticalmente, a partir dos setores subordinados, oposição direta à estrutura de poder e seu comportamento; b) obter horizontalmente, apoio e solidariedade e construir uma rede de relações contrária às políticas públicas ou mesmo à própria sobrevivência de estrutura de poder” (2002, p.29).

O termo cunhado por Downing pretende englobar um número muito amplo de iniciativas em comunicação que podem ser rastreadas desde antes mesmo do surgimento dos mass media. Essas ações compartilham com a noção de mídia tática o desconforto com a denominação de meramente “alternativas”. Para Garcia e Lovink, “embora as mídias táticas incluam mídias alternativas, não estamos restritos a esta categoria. De fato, nós introduzimos o termo tático para romper e ir além das rígidas dicotomias que tem restringido o pensamento nesta área por tanto tempo, dicotomias tais como amador vs. profissional, alternativo vs. popular. Mesmo privado vs. Público”.

(http://www.midiaindependente.org/pt/red/2003/03/249849.shtml).

O que está em jogo nessas concepções é o papel da audiência, do próprio sujeito, que agora tem nas mãos a possibilidade de se manifestar. Essa possibilidade de uma “audiência ativa” (Downing 2002, p.38), capaz de elaborar e moldar os produtos midiáticos, começa a deslocar a própria percepção dos meios. Érico Assis afirma que “o ativista atual [...] age no intermédio entre o engajado e o especialista, planejando e executando seu ato político com os olhos voltados para sua tradução adequada para o campo midiático. [...] Esta primeira reverberação da ação ativista visa gerar outras ao longo do próprio campo midiático – como nos exemplos de absorção pela indústria do entretenimento, campanhas publicitárias etc. -, do corpo social – novos engajados, novos ativistas -, da cultura, e dos demais campos sociais. A mensagem da ação faz um grande circuito para adquirir força, e retornar ao próprio campo político, afetando decisões da política institucional e do campo econômico” (Assis 2006 p.42). A todas essas formas contemporâneas de uso da mídia para o ativismo político e estético – incluindo as ações de mídia tática, os detournemet e a culture jamming (a manipulação de peças publicitárias com a finalidade de contestar sua mensagem) -, os grupos ativistas têm se referido como midiativismo. O próprio termo já ressalta o papel central das mídias no planejamento das ações.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSIS, Érico Gonçalves de. Táticas lúdico-midiáticas no ativismo político contemporâneo. Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. Programa de pós-graduação em Ciências da Comunicação. Dissertação de Mestrado, 2006.

DOWNING, John D.H. Mídia Radical, Rebeldia nas comunicações e movimentos sociais. Senac, São Paulo, 2002

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