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Internet e movimento social

Os meios digitais, e particularmente a rede mundial de computadores (Internet), tem sido apontada por muitos estudiosos como a grande alternativa para romper com os modelos de comunicação de massa unidirecionais que concentram os meios de expressão nas mãos de poucos. Essa crítica aos meios de comunicação de massa é quase tão antiga quanto eles próprios. É a partir da popularização do rádio e da televisão que cresce o interesse em estudar os efeitos dessas novas formas de comunicação de alcance amplo e totalizante. No período após a primeira guerra mundial, artistas como Bertolt Brecht já se referiam ao rádio como um instrumento nas mãos dos que “não têm o que dizer”. Em seu artigo “O rádio como aparato de comunicação”, Brecht dizia: “não era a matéria-prima que esperava pelos métodos de produção com base numa necessidade pública; eram os métodos de produção que procuravam ansiosamente pela matéria-prima. Tinha-se, repentinamente, a possibilidade de dizer tudo a todos, mas, pensando bem, não havia nada a ser dito. E quem seriam esses todos?”. (grifo meu)

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142007000200018&lng=enesja.org&nrm=iso&tlng=enesja.org

As discussões sobre os “efeitos perniciosos” das mídias de massa foram encabeçadas por um grupo de estudiosos que ficou conhecido como a “Escola de Frankfurt”. Por muito tempo os teóricos da escola de Frankfurt “deram o tom” das críticas aos meios de comunicação de massas amparado num argumento que teóricos como Downing consideram “simples, na verdade, simples demais” (2002 p.35): o de que os efeitos dos meios de comunicação sobre o público ocorriam de modo behaviorista, na base do “estímulo-resposta”. Assumindo uma perspectiva crítica próxima, ao lançar “A sociedade do espetáculo”, em 1967, Guy Debord, da Internacional Situacionista (um movimento político-artístico de cunho marxista) propunha que as relações capitalistas que permeiam as trocas culturais revestem a realidade de uma aura “espetacular”. Debord aponta então táticas de desvio da percepção do cotidiano, a partir da inserção/sugestão de novos elementos construtores de sentido (detournements).

Apesar da forma redutora como são retomadas hoje na área da Comunicação, as idéias da “Escola de Frankfurt”, assim como de intelectuais sobre os quais tiveram influência, ainda participam ativamente do debate sobre os meios, ainda que, muito freqüentemente, a partir da negação do seu poder manipulatório absoluto. Hoje, um dos teóricos mais respeitados na área da Comunicação, Jesús Martin-Barbero, prefere defender a existência de um “hibridismo” entre a cultura popular (aquela preexistente aos meios de comunicação de massa) e a cultura de massa (a resultante da indústria cultural), mas, ainda nos anos 60, o olhar dos artistas já dava noções dessa percepção e apresentava com uma clareza clínica o papel da comunicação nas relações sociais.

Uma outra corrente crítica aos meios de comunicação de massa, também amparada nas considerações da “Escola de Frankfurt”, foi também, aos poucos, delineando-se a partir da descolonização ocorrida pós-segunda guerra. Essa corrente mais formal atuava no sentido de obter uma intervenção política explícita dos novos países no sentido de constituir mídias nacionais, estatais, desalinhadas de comunicação. O grande expoente dessa corrente de mobilizações foi a Unesco, organismo das nações unidas – sem poder deliberativo – responsável pelas questões de educação, ciência e cultura. No final da década de 1960, a Unesco aglutinava uma grande quantidade de países que havia se tornado independente recentemente e que não se alinhava, automaticamente, aos eixos capitalista ou socialista. Esses países passam a se orientar pela antiga política de livre-fluxo da informação, apoiada pelos países imperialistas, adotando “para o desenvolvimento da imprensa, do rádio e da televisão, dos satélites, e outras novas tecnologias de comunicação, uma intervenção explicita dos Estados nacionais, direta e indireta, fosse pela exploração de meios estatais de comunicação, fosse por regulamentos e normas diversas que ajustassem os eventuais meios privados aos programas, objetivos e metas que compunham o planejamento governamental para toda a sociedade”. (Ramos p. 29).

As distintas reações ao modo como meios de comunicação vinham sendo moldados pelos grandes potências políticas e econômicas resultaram em diferentes movimentos em favor da democratização das comunicações, a depender do perfil de seus ativistas, dando origem a duas correntes críticas que ficaram caracterizadas como contra-hegemônica ou expressivista. A crítica contra-hegemônica tenta mostrar que a circulação de informação no mundo é controlada por um grupo restrito de países, detentores de indústrias culturais fortes, maior disponibilidade de capital e aparatos de difusão de informação mais sofisticados. Graças a essa conjuntura, esses países conseguem pautar o consumo nos países periféricos. “Essa crítica contra-hegemônica tenta mostrar que existe uma diferença de fluxo, de poder, um desequilíbrio em termos mundiais no que se refere à comunicação. Os movimentos contra hegemônicos são formados por ONGS, coletivos de artistas, jornalistas e sindicatos, muito deles vinculados à área da comunicação. [...] é correto pensar que as mobilizações tenham na verdade um caráter mais formal, de tentar interferir na estrutura geral do arranjo comunicativo de um país no sentido de modificá-lo”, afirma Luiz Carlos Costa (em aula ministrada na oficina sobre mídias digitais, Programa de Formação de Agentes de Mediação Sociocultural (UFPE, MEC/SESu/Depem, novembro de 2007). Já a crítica expressivista está mais vinculada aos movimentos que tentam disponibilizar para as comunidades vitimadas por esse desequilíbrio no fluxo informacional as ferramentas para a “virada de mesa”. “A crítica expressivista foi, na verdade, a precursora da mídia tática, porque a sua proposta era radicalmente diferente: era colocar nas mãos dessas pessoas, que eram objeto dessas diferenças de fluxo, as ferramentas para se contrapor a elas” (Luiz Carlos Costa, fonte citada).

No começo da década de 90, os dispositivos de comunicação começam a se tornar mais baratos e, mais do que isso, começam a se tornar de fácil manipulação e portáteis. O preço da transmissão de dados também se reduz significativamente nos países europeus. Dadas essas novas condições, as possibilidades de manifestação desses ativistas em comunicação se ampliam vertiginosamente Data dessa época (1992) o manifesto por uma “mídia tática”. O ABC da mídia tática, publicado por Geert Lovink e David Garcia, prega que a mídia tática é uma forma de apropriação das mídias hegemônicas que se vale de lapsos dos conglomerados de mídia para a veiculação de conteúdos subversivos. A denominação de “tática” está calcada na distinção entre tática e estratégia proposta por Michel De Certeau, onde “tática” teria uma conotação de prática localizada no tempo e estratégia seria uma configuração mais estável, de longo prazo.

Segundo Garcia e Lovink, um exemplo característico do tático pode ser visto no trabalho do artista polonês Krzystof Wodiczko, que percebe como as hordas de desalojados agora ocupam o espaço público das cidades: praças, parques, vãos de estações de trem que tinham antes sido desenhados por uma triunfante classe média para celebrar a conquista de seus novos direitos políticos e liberdades econômicas. Wodiczko acredita que estes espaços ocupados formam novas àgoras que deveriam ser usadas para sua determinação. “O artista precisa aprender como operar como um sofista nômade numa pólis migratória”, afirma.

(http://www.midiaindependente.org/pt/red/2003/03/249849.shtml)

A mídia tática tem mesmo grande relação com as artes, assumindo uma postura muitas vezes vanguardista, para movimentos sociais, pela sua valoração da forma estética, além do conteúdo. Valendo-se também de mobilizações performáticas para penetrar na lógica também espetacular dos mass media, a mídia tática representa a reaproximação entre os movimentos expressivistas e contra-hegemônicos. Representa também uma requalificação do ativista tradicional, de quem passa a ser exigidas uma série de competências técnicas e também teóricas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DOWNING, John D.H. Mídia Radical, Rebeldia nas comunicações e movimentos sociais. Senac, São Paulo, 2002

RAMOS, Murilo César, Demérs, François e Zylberberg Jacques, As políticas nacionais de comunicação e a crise dos paradigmas, in: Às margens da estrada do Futuro, de Murilo César Ramos, 2000 FAC-UNB http://www.unb.br/fac/publicacoes/murilo/index.htm. p. 29

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