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Internet e movimento social: e o digital?

A Internet nasce do encontro entre a pesquisa militar e o universo acadêmico. No final da década de 60 do século XX, o Departamento de Defesa dos EUA está empenhado em desenvolver tecnologias que lhe garantam a supremacia militar e tecnológica sobre a União Soviética, pois o país já havia sofrido uma derrota para o sputnik na corrida espacial. Nesse período, uma de suas agências, a ARPA, resolve montar uma rede que possa interligar e agilizar a comunicação entre os centros de pesquisa. A ARPANET foi a primeira rede de computadores, o embrião daquilo que seria a Internet um dia. Antes de sua plena difusão a rede de computadores teve um crescimento modesto, como relata Wertheim (1999), de apenas um nó por mês, devido entre outras coisas a limitações técnicas. Entretanto, a vantagem da “Rede” já era perceptível e estimulou a formação de outras redes similares. Esse processo de formação de redes culminou na criação de um protocolo de comunicação entre elas e na instalação dos primeiros backbones – estruturas de computadores de grande potência que servem literalmente como “espinha dorsal” da Internet. É por eles que passa todo o fluxo de dados da rede. Integrando a comunicação entre universidades do país, essa rede, a NSFNET (de “National Science Foundation”), foi o ponto de partida para a popularização da Internet, sendo responsável por sua abertura ao público não-acadêmico ou militar.

A “maturidade” da rede se dá com o desenvolvimento da “World Wide Web” em meados da década de 90. A Web é uma aplicação que se utiliza do suporte da Internet, é um sistema de documentos linkados – vinculados entre si – que resulta da interligação dos computadores propriamente ditos. Esses documentos vinculados formam um hipertexto e podem estar na forma de vídeos, sons, textos e figuras. Até o desenvolvimento da Web o usuário “doméstico” não via muito uso para a Internet. Com a Web, torna-se possível seguir as hiperligações (navegar/surfar na internet), difunde-se também uma interface gráfica para o acesso à Internet. Essas novidades trazidas pela Web são responsáveis por uma profusão de serviços comerciais que povoam a Internet e a tornam atrativa ao público doméstico.

A história da Internet é uma história de cooperações improváveis e resultados inesperados decorrentes de esquema de apropriações tecnológicas que só ratifica o quanto as pessoas menos capacitadas para antever os usos possíveis de uma tecnologia podem acabar sendo seus desenvolvedores. É também um reforço à idéia de que “a cooperação e a liberdade de informação podem ser mais propícias à inovação que a competição e os direitos de propriedade” (Castells 2001, p.13). Por baixo de todas as camadas de códigos e protocolos da Internet, bate um coração libertário, e esse coração se constituiu a partir dos grupos de indivíduos que primeiramente a utilizaram: os hackers. Castells parece fazer uma distinção entre os cientistas que desenvolveram e os hackers que primeiramente utilizaram a Internet.

Os cientistas teriam contribuído para o ‘espírito’ da internet com o que ele denomina como cultura “tecnomeritocrática”: “uma cultura da crença no bem inerente ao desenvolvimento científico e tecnológico como um elemento decisivo no progresso da humanidade” (Castells 2001, p.36). No cerne dessa cultura estariam a valorização da descoberta tecnológica capaz de aperfeiçoar o artefato tecnológico (a rede), a comunicação aberta da descoberta, um sistema de reputação atribuída capaz de aumentar a estima do pesquisador entre os pares e uma submissão a um código de ética destinado a não exaurir os recursos comuns. A idéia de que se está entre iguais é muitíssimo importante e difundida na Internet e, justamente por ser tão difundida, é responsável por alguns deslizes, como considerar que o grau de interesse ou desenvoltura nesse espaço está descolado de uma trajetória pessoal.

Por sua vez, os hackers teriam contribuído com duas características “críticas”: a “autonomia dos projetos em relação às atribuições de tarefas por instituições ou corporações” e do “uso da interconexão de computadores como a base material, tecnológica da autonomia institucional.” A Internet seria então fruto da cultura tecnomeritocrática e, como tal, seria atualizada pela cultura hacker. O ponto aqui é que os cientistas e hackers, nesse momento, eram exatamente as mesmas pessoas. Após sua saída da ARPA, motivada por divergências ideológicas quanto à participação na guerra do Vietnã (Rheingold, 1996), os cientistas que conduziram a instalação da ARPANET se instalaram na Xerox-Parc onde desenvolveram uma nova rede – posteriormente interligada com a ARPANET – e focaram a atenção em levar o computador aos não-programadores.

Um terceiro grupo, o dos capitalistas de risco, tem também papel importante no arranjo que a Internet vem tomando ao longo dos anos. Castells (2001, p.24) faz questão de frisar que “a Internet se desenvolveu num ambiente seguro, propiciado por recursos públicos e pesquisa orientada para a missão, mas que não sufocava a liberdade de pensamento e inovação”. Ironicamente, todo esse ambiente controlado foi o que permitiu que a internet se desenvolvesse de modo a se tornar um ambiente “anárquico”, construído por cientistas “libertários” (no sentido europeu do termo – aquele que, para além da desconfiança estatal, valoriza quaisquer iniciativas que assegurem as liberdades individuais). Fosse de outra maneira, talvez, a possibilidade de interação com o meio estivesse ameaçada, submetida a interesses econômicos. Ou talvez, ainda, o progresso da tecnologia se desse de modo mais lento, dependendo da viabilidade comercial da descoberta. Com a criação da Web, entram em cena os negócios na Internet. Ao mesmo tempo que popularizam o ambiente, esses negócios começam a investir contra a anarquia excessiva do espaço virtual. Sem se dar conta, motivados por necessidades legítimas do mundo capitalista, as empresas que atuam na Internet começam a desenvolver mecanismos para reconhecer seus clientes, estratégias para fidelizá-los, forma de detectar padrões que possam orientar a exploração do ambiente anárquico, que é agora um paraíso “liberal” (no sentido econômico) do consumo.

Um outro fenômeno característico da cultura fundadora da Internet é apontado por diversos autores de modo ligeiramente diferente. Castells fala de uma “cultura do dom” – a combinação entre liberdade e cooperação (2001, p. 42) – existente nas relações dos primeiros hackers e acionada como forma de obter prestígio entre os pares. Rheingold se vale das aplicações econômicas das “teorias matemáticas dos jogos” (especialmente uma versão recursiva do “dilema do prisioneiro”) para caracterizar esse efeito de troca como um “jogo de soma não-zero”, onde a existência de um vencedor não implica necessariamente na existência de um perdedor. Levy, por sua vez, identifica esse processo com a formação de uma inteligência coletiva, o desenvolvimento de um acervo coletivo de conhecimento passível de apropriação por qualquer indivíduo.

Castells, Levy, Rheingold…Cada um deles à sua maneira aponta para um tipo de uso e conceção da Internet que é intrínseco aos valores, intenções, à cultura dos seus desenvolvedores e parece contagiar as iniciativas não-capitalizadas que se desenvolvem em seu seio. “A cultura do dom no mundo hacker distingue-se de outras análogas. Prestígio, reputação e estima social estão ligados à relevância da doação feita à comunidade. Assim, não se trata apenas da retribuição esperada pela generosidade, mas da satisfação imediata que o hacker tem ao exibir sua engenhosidade para todos. Além disso, há a gratificação envolvida no objeto ofertado. Ele não tem apenas valor de troca, tem também valor de uso. O reconhecimento vem não só do ato de doar, como da produção de um objeto de valor (software inovador)” (Castells 2001, 42). Essa cultura do dom mobiliza uma “economia do dom” que repercute em camadas superiores da estrutura da Internet, mantendo a necessidade de reciprocidade mesmo em situações onde o bem oferecido é mais abstrato, é pura informação.

Rheingold, relatando suas experiências na WELL nos dá uma mostra da economia do dom em ação: “David Hawkins havia trabalhado como engenheiro e eletricista, e descobriu que ele rapidamente aprendeu o suficiente sobre o software da WELL para atuar como um guia não-pago para muitos de nós que haviam ingressado na mesma época que ele [...] Dhawk (O apelido que David Hawkins assumia na rede WELL) me ajudou a encontrar meu caminho e ele me visitou face-a-face nos primórdios. Eu fui um dos muitos que se sentiram obrigados a passar adiante o favor quando percebemos novatos vagando, procurando modos de se conectar uns com os outros através do software da WELL”. A ‘economia do dom’ é o que possibilita a manutenção de comunidades virtuais saudáveis, que mobilizam seus usuários em prol da manutenção de um bem comum.

Mas a mídia digital não é só a Web ou a Internet, são também os dispositivos que permitem a conexão entre os indivíduos. Howard Rheingold. em seu livro “Smart mobs”, vislumbra, na prática, as possibilidades de ampliação da inteligência individual (e em conseqüência, da coletiva) numa perspectiva bem próxima àquela que Pierre Levý vem propondo em seus trabalhos teóricos (“A inteligência coletiva”, por exemplo). Ele denomina esses processos como “smart mobs” (algo como “gangues inteligentes”) por fazer alusão a como esses dispositivos estão ao mesmo tempo possibilitando uma integração nunca antes possível (em tempo real e de modo permanente, móvel) e, ao mesmo tempo, gerando segregação para além do espaço virtual (como efeito colateral do agrupamento de indivíduos não mais por contigüidade espacial ou temporal). O efeito da difusão ubíqüa dos dispositivos móveis de comunicação pessoal pode também ser enxergado como um dos melhores exemplos do poder condicionante da técnica a que Levy se referia ao analisar os “impactos” das tecnologias de informação sobre a vida dos indivíduos (1999 p.26).

Contrariando em parte as expectativas otimistas de Rheingold e de Levy, o que tem se percebido com a ubiqüidade dos dispositivos de comunicação móvel é, na verdade, um processo de seccionamento não-natural (no sentido de que não é de todo determinado pelos indivíduos) entre grupos, motivado duplamente por questões econômicas. Motivações econômicas, em primeiro lugar, porque o acesso a serviços fica condicionado à possibilidade de arcar com seus custos, gerando espécies de “castas” de incluídos digitalmente (para além da já primária e radicalmente excludente divisão entre os com e os sem-acesso). Econômica novamente porque, mesmo aqueles usuários capazes de custear os acessos “plenos” ao mundo digital, não podem usufruir de uma integração completa entre os serviços que utilizam devido ao lobby das indústrias produtoras de softwares e licenciadoras de serviços. Assim como nos meios tradicionais, também as mídias digitais estão submetidas a um monopólio e, o mais grave, esse monopólio é sub-reptício. Os métodos escusos de controle da comunicação digital estão mascarados sob diversas camadas de argumentos falaciosos e técnicas, a exemplos dos “cookies”: Cookies são peças de código que, a pretexto de agilizar o acesso do internauta aos serviços de um determinado empreendimento online, mantém um banco de dados com as informações cadastrais do internauta (são ativados a partir de caixas com dizeres como “lembrar meu login”). Entretanto, a memorização ativada pelos Cookies permite também ao empreendedor manter um rastro dos sites por onde o internauta navegou, e cruzar estas informações com o perfil do cadastro. Tecnicamente, o cookie divide a vigilância em dois momentos (a montagem do cadastro e a ativação do cookie propriamente dito) e assim transforma a vigilância num “efeito colateral”. Já quanto ao discurso, as falácias são: 1) ninguém está obrigado a ativar um cookie, já que eles servem apenas para poupar tempo, não limitam o acesso aos serviços (Se na sociedade do “tempo é dinheiro” todos querem ativar cookies e poupar tempo, a culpa não é das empresas). 2) ninguém está obrigado a utilizar um determinado serviço, ou fornecer todos os seus dados, há sempre serviços alternativos (Se este é o serviço mais popular, ou mais confiável, novamente, a culpa não é das empresas).

Estruturalmente falando, a Internet foi desenhada para permitir a livre comunicação entre seus pólos, de uma maneira tal que é impossível, do ponto de vista técnico, fazer distinção entre “receptor” e “transmissor”. Aliado a isto o propagandeado (agora um mito) anonimato absoluto da rede faz da Web um ambiente ideal para a difusão de “conteúdo subversivo”. Justamente essa propensão à subversão, calcada no anonimato, é que tem motivado o desenvolvimento de cada vez mais camadas de “código” – programas e lógicas – que rodam sobre a infra-estrutura (técnica e lógica) básica da Internet a fim de identificar padrões e grupos de usuários, de tal modo que se possa impedir o completo anonimato e impor novas formas de controle ao acesso e distribuição de conteúdos. Chegou-se a tal ponto que, talvez, o anonimato esteja mais garantido fora que dentro da rede.

Para além da possibilidade de identificação, inibidora de alguns fronts de atuação, a própria estrutura tecnológica hegemônica, atuando sobre as mídias digitais e sobre a Web, é causa de limitações de várias ordens. O sistema de “código fechado”, e o rebatimento de sua lógica sobre o processo de produção e consumo de bens culturais, que colocou a relação de consumo acima das condições de uso das ferramentas, replica os efeitos fascistas de simulação das necessidades do público, uma estratégia que os teóricos de Frankfurt identificavam nos mass media emergentes na época. Todos esses interesses ligados ao controle e uso comercial da rede limita, jurídica e tecnicamente, as possibilidades de apropriação desses bens, como argumenta Lawrence Lessig, em seu livro “freeculture”. Mas, felizmente, onde há mídias controladas, há também midiativistas combativos desenvolvendo estratégias de superação.

O que muda então com a Internet no complexo jogo de exploração dos meios? Muda o ponto de partida, o arranjo inicial das peças. Dada a estrutura primária da Internet – baseada em código aberto, disponível ao público; construída a partir de uma lógica colaborativa -, os ativistas têm na própria rede as ferramentas para contornar e, eventualmente, superar as limitações sobrepostas pelos interesses ligados ao capital. Na Internet também é possível perceber um espelhamento dos dois segmentos de ativistas em comunicação apresentados anteriormente, os contra-hegemônicos e os expressivistas.

Na perspectiva de uma ação contra-hegemônica, merecem destaque as iniciativas do Creative Commons, que visa combater o monopólio dos grandes conglomerados midiáticos sobre a propriedade intelectual. Para tanto, além do engajamento em batalhas judiciais (como relatada por Lessig em “Freeculture”), desenvolveram um sistema próprio de regulamentação de conteúdo calcado na colaboração. Já na perspectiva expressivista, o exemplo mais empolgante, talvez por ser o que realmente consegue ser mais “popular”, é o movimento de metareciclagem. Baseado no código de conduta hacker, que deu origem ao software livre e à própria Internet, esse movimento propõe a “reapropriação tecnológica”, ou seja, o entendimento dos processo de funcionamento dos dispositivos tecnológicos a fim de possibilitar uma soberania no uso dos mesmos.

 

Em comum com outras formas de ativismo existentes nos dias do digital, essas abordagens também deslocam para o sujeito a responsabilidade pela ação, continuando a idealização de uma audiência ativa, potencialmente ativista e tática. Apesar das tensões e disputas ideológicas, apesar das insistentes tentativas de reprodução no ambiente digital dos modelos de controle do meios que lograram êxito em outros dispostivos tecnologicos, a Web ainda é, potencialmente, uma das ferramentas mais promissoras para atuação dos movimentos sociais na busca por visibilidade e por “voz”.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

ASSIS, Érico Gonçalves de. Táticas lúdico-midiáticas no ativismo político contemporâneo. Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. Programa de pós-graduação em Ciências da Comunicação. Dissertação de Mestrado, 2006.

CASTELLS, Manuel. A galáxia da internet: Reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Jorge Zahar, 2003.

DOWNING, John D.H. Mídia Radical, Rebeldia nas comunicações e movimentos sociais. Senac, São Paulo, 2002

LESSIG, Lawrence. Free Culture: How Big Media Uses Technology and the Law to Lock Down Culture and Control Creativity.2004. The Penguin Press

LÉVY, Pierre. Cibercultura. Editora34, 1999.

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RHEINGOLD, Howard. A Comunidade Virtual. (Em http://www.rheingold.com/vc/book/)

_______. Smart mobs: the next social revolution. perseus publishing, 2002

WERTHEIN, Margaret. Uma história do espaço de Dante à Internet. Jorge Zahar, 1999.

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