h1

Coque, uma vítima do preconceito

Os moradores do Coque enfrentam cotidianamente muitos desafios. Saúde, Educação, Emprego, Moradia são problemas sociais graves na comunidade. Todos esse problemas, no entanto, são agravados por um outro: o preconceito que pesa sobre o bairro.No imaginário dos recifenses, o Coque é sinônimo de perigo, de “terra de ninguém”, de “morada da morte”. A imagem de lugar violento transforma a todos os moradores em “bandidos em potencial”, levando-os ao extremo de mentir sobre o local onde moram (preferem dizer que moram em Afogados ou São José). Afinal, morar no Coque significa “desclassificação automática” nas seleções de emprego. A discriminação é tão grande que nem mesmo a capacitação profissional voltada para a prestação de serviços ao pólo médico e oferecida por uma organização do terceiro setor, como a ONG NEIMFA, foram capazes de abrir as portas para os moradores do bairro no complexo Hope-Esperança, vizinho à comunidade.

Historicamente, a imagem de comunidade violenta do Coque remonta ao século XVIII, quando os capangas – homens armados responsáveis pela fiscalização e segurança das mercadorias oriundas do sertão e da Zona da Mata – passa a se alojar na região no intervalo entre as transações comerciais no porto. Estes homens, violentos e intransigentes, ficam conhecidos como “cocudos” (é possível que daí venha o “Coque”) e com o passar do tempo diversificam suas áreas de atuação profissional e passam a ocupar a região, construindo mocambos. Por volta das décadas de 60 e 70, uma nova onda de violência, agora associada à juventude, foi amplamente explorada pela mídia local. É nessa época que surge o lendário “Galeguinho do Coque”, um criminoso procurado pela polícia em quatro Estados do Brasil que se alojou por mais de quatro anos na comunidade, Desde então o Coque tem a fama de “acobertar marginais”.

Ainda nos dias atuais a imagem do perigo se perpetua, Silva (2007, p. 91) aponta algumas razões:

1) o aumento significativo da violência dentro da comunidade na década de 1990, ligado especialmente à maior disponibilidade de armas de fogo e à maior circulação de drogas, especialmente o crack, dentro da comunidade (Freitas 2005, p.256);

2) a proximidade geográfica a áreas de classe média e alta, o que faz com que ela represente maior “risco” aos “cidadãos” e “pais de família” recifenses;

3) o enquadramento monofocal dado pela mídia à localidade, estampando manchetes como Coque: morada da morte, como se lá crimes e miséria fossem as únicas coisas existentes.

Segundo Freitas (em conversa gravada com os jovens da ARCA), menos de um por cento dos quase vinte mil jovens que habitam o Coque estão diretamente envolvidos com a criminalidade. Essa quantidade insignificante, do ponto de vista estatístico, é responsável por atribuir à toda uma comunidade o estigma de “terra de ninguém”.

Pela proximidade com áreas nobres e comerciais, onde circulam as classes média e alta, os grupos de jovens do bairro associados à criminalidade acabam sendo responsabilizados por toda a violência registrada na zona sul, razão pela qual os moradores do Coque acabam sofrendo mais preconceito do que os de comunidades com indicadores mais altos de violência, mas que representam menor risco no imaginário coletivo do Recife. O preconceito contra “a gente perigosa do Coque” é tão grande que, ao nos aproximarmos dos jovens do Coque, a partir da experiência de produção de um jornal-laboratório sobre o bairro, começamos a nos dar conta que a comunicação é um problema social tão grave quanto todos os outros. A imagem negativa sobre o Coque, dentro e fora da comunidade, é um problema que atravessa todos os demais problemas sociais e agrava o círculo de exclusão dos moradores do bairro, especialmente dos jovens. Por isso, em parceria com a ONG NEIMFA e a ONG Auçuba – Comunicação e Educação, o Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco vem coordenando, desde 2006, um conjunto de intervenções extensionistas no Coque orientadas pelo objetivo de transformar as representações sociais do bairro dentro e fora da comunidade. Para essa transformação, a mídia digital pode ser uma aliada poderosa.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • COQUE, Jornal-laboratório do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco. 6º período, 2005.2
  • FREITAS, A.S. (2005). Fundamentos para uma sociologia crítica da formação humana. Um estudo sobre as redes associacionistas da sociedade civil. Recife, UFPE. Tese de doutoramento.
  • VALE NETO, J. P. Coque, a morada do vínculo. Trabalho de conclusão de curso apresentado em 11/09/2007.
  • SILVA, ANA CAROLINA DE SENNA MELO E. O que eles diriam, se não estivéssemos surdos de medo? Um estudo sobre o potencial da comunicação comunitária na prevenção da violência juvenil. Trabalho de conclusão de curso apresentado em 2007

DOCUMENTOS UTILIZADOS

  • MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO/SECRETARIA DE ENSINO SUPERIOR – Rede de Agentes de Educomunicação Solidária 2006-2007. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/sesu/index.php?option=content&task=view&id=442&Itemid=303
  • MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO/SECRETARIA DE ENSINO SUPERIOR – Programa de Formação de Agentes de Mediação Socio cultural 2007-2008. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/sesu/index.php?option=content&task=view&id=442&Itemid=303
  • PROEXT PETROBRAS – Rede de Comunicação, Educação e Cultura: Filhas e Filhos do Coque, 2007. Disponível em: http://www.ufsj.edu.br/Pagina/videx/programa_de_apoio_a_cultura.php
  • PROEXT/UFPE – Rede de Agentes de Educomunicação Solidária, 2007-2008. Disponível em:

http://www.proext.ufpe.br/noticias/2007/julho/dia06.01%20-%20Resultado%20BEX.html

One comment

  1. acho orrivel que as pessoas tenham cido discriminadas
    por algo que não é verdade
    é de ter que mentir para as outras pessoas aonde
    eles moram



Deixe um comentário