
Coque, um jornal como laboratório
As intervenções extensionistas da UFPE no Coque, com vistas à ressignificação da imagem da comunidade do Coque no imaginário da cidade do Recife, começa com um jornal-laboratório realizado pelos alunos da habilitação de jornalismo. A idéia do jornal chega ao Departamento de Comunicação a partir do aluno João Vale Neto, que há pouco havia começado a atuar como voluntário no NEIMFA, dando “micro oficinas de jornalismo”. Alguns dos alunos de João, integrantes de um coletivo de jovens local chamado MABI (Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis), perguntaram se não seria possível à universidade construir um jornal que melhorasse a auto-estima do bairro. A turma de João estava saindo do 5º para o 6º período do curso de jornalismo e, por coincidência – ou sorte -, este é justamente o período em que a turma deve produzir um jornal-laboratório.
A professora indicada para conduzir a disciplina de edição – carro chefe do jornal-laboratório – era uma recém chegada ao departamento, ainda em estado probatório. Mesmo sem conhecê-la, João resolveu propor o jornal sobre o Coque. E, mais uma vez, por sorte, coincidência ou senso de oportunidade a proposta de construir um jornal sobre a “comunidade mais violenta do Recife” foi levada adiante pela professora Yvana Fechine.
A proposição do tema gerou rebuliço na sala, como conta Neto (2007, p.27): “Quando palavra Coque foi mencionada, boa parte da turma, ergueu murmúrios ou levantou a voz: Coque? A simples menção de se encontrar com a palavra Coque causou frisson entre nós. Nossa turma, na época, no 5º período, embora sempre se queixasse da monotonia universitária, se queixou mais ainda da proposta. (…) Embora lêssemos sobre a periferia e nos indignássemos frente às condições sociais do Brasil, não passávamos disso.”
Os argumentos para a desmobilização do trabalho iam desde a necessidade de deslocamento para fora do Campus até o fato de ser um trabalho coletivo, passando pela violência do local e pela descrença na repercussão do trabalho.
A proposta do jornal evidenciava a necessidade de conversar com o outro, de mergulhar em uma outra realidade. O contato com a alteridade estaca assegurado desde o princípio quando se optou pela deliberação das pautas em conjunto com os futuros colaboradores do jornal. Daí pra frente o jornal foi sendo construído num esquema de colaboração a três, sendo dois estudantes e um morador da comunidade. Três pontos de vista sobre cada uma das pautas, comparando versões, ampliando perspectivas e escrevendo juntos.
Silva (2007 p.95) ressalta o comprometimento dos construtores do jornal com os temas como um diferencial da pubicação: “Esse comprometimento se reflete no enfoque dos aspectos positivos a serem vistos, com o cuidado de não romantizar ou obliterar a visão sobre os problemas. Principalmente o cuidado e detalhamento da abordagem foram priorizados, gerando um resultado muito diferente daquele atingido pelo jornalismo de mercado, cujo modo de produção é marcado pela pressa e pela generalização, conferindo-lhe um olhar superficial que reforça preconceitos.” Temas como habitação e violência ganharam novos relevos, com enfoques incomuns à grande mídia, enquanto outros como a cultura e saneamento finalmente foram abordados e, apartir da repercussão do jornal, chegaram a ser pautados pelos veículos tradicionais de comunicação.
O jornal foi lançado em junho de 2006, com muita festa, num evento chamado “Coque no CAC” (Centro de Artes e Comunicação) e outro também na própria comunidade. Ambos os eventos contaram com a presença das bandas do MABI e de representantes de outros movimentos sociais (como o Boca do lixo, de Peixinhos). . A tiragem de 2.000 mil exemplares está esgotada, mas o jornal está disponível, em formato no digital:
http://media.twango.com/m1/original/0062/6df0b3045fb84486bca8bd6e03ed3b8d.pdf,.
Esses lançamento deveriam representar o ponto final de um trabalho bem-feito. Graças, mais uma vez, a provocação de um dos membros do MABI e a sensibilização dos estudantes de jornalismo, proporcionada pelo “laboratório” de quase três meses no Coque, o trabalho iria continuar, como conta Neto (2007 p.36): “Ponto final que nada. Ferreira provocou: ‘Vocês vão tirar dez e vão embora é? ‘ Yvana e alguns estudantes da turma de Edição se sentiram instigados com aquela pergunta, que não foi compreendida como mais uma malandragem de Ferreira, mas como uma sabedoria de quem está cansado de instrumentalização.”. Juntamente com os jovens do MABI, nós, estudantes de comunicação da UFPE, percebemos a necessidade de converter essa ação pontual em uma intervenção mais sistemática e contínua, o que se tornou possível com a proposição de projetos de extensão.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- VALE NETO, J. P. Coque, a morada do vínculo. Trabalho de conclusão de curso apresentado em 11/09/2007.
- SILVA, ANA CAROLINA DE SENNA MELO E. O que eles diriam, se não estivéssemos surdos de medo? Um estudo sobre o potencial da comunicação comunitária na prevenção da violência juvenil. Trabalho de conclusão de curso apresentado em 2007