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Coque, os meios de comunicação como extensão

 

A atuação da UFPE no Coque envolve um conjunto de ações nas áreas de Comunicação, Educação e Cultura realizadas desde 2006. Todas essas ações, designadas genericamente de Coque Vive , vêm sendo realizadas por meio de projetos de extensão apoiados pelos ministérios da Educação e Cultura através da Pró-reiotira de Extensão da UFPE. Participam do projeto alunos e professores dos departamentos de Educação, Ciências Sociais, Administração e Comunicação Social, sendo este último responsável pela coordenação das açõesAlém dos graves problemas de desemprego, educação, saúde, moradia e saneamento, os moradores do Coque sofrem com o preconceito provocado pela atuação histórica na comunidade de grupos criminosos ligados, sobretudo, ao narcotráfico. Programas de rádio e TV referem-se, com naturalidade, à “gente perigosa do Coque” e, nos jornais locais, o bairro já foi apresentado até como a “morada da morte”. Moradores do bairro testemunham que a simples menção à palavra Coque no currículo reduz suas chances de conseguir um emprego. Com o objetivo de romper essa lógica de exclusão, todas as intervenções do Coque Vive têm sido orientadas pela preocupação em transformar as representações sociais do bairro dentro e fora da comunidade.

Acolhidos no Coque pelo Núcleo Educacional Irmãos Menores de Francisco de Assis (NEIMFA), os projetos têm atuado junto aos jovens do bairro por meio de cursos de formação crítica nos quais se discute a construção social da realidade, as relações entre discurso e ideologia, o direito à comunicação, as questões de identidade e pertencimento à periferia, entre outros temas. Também são oferecidas oficinas de capacitação para o manuseio técnico-expressivo das mídias. Busca-se por meio dessa formação, crítica e técnica, estimular o surgimento de estratégias de comunicação alternativas capazes de ofertar novos conteúdos sobre o Coque produzidos, agora, pelos seus próprios jovens (jornal on line, jornal comunitário, fanzines, vídeos, fotos, blogs etc.).

O projeto Coque Vive vem atuando ainda como articulador de uma rede de promoção social composta, além da Universidade, pela Igreja, Ongs e coletivos de jovens. Essa atuação articulada permitiu, a partir de recursos do Programa BNB Cultura, a implantação da Biblioteca Popular do Coque que se tornou também um espaço de formação. Tem permitido também a realização dos Circuitos de Mobilização Coque Vive, eventos que problematizam as representações sociais do Coque por meio de exposições e exibições, intervenções e instalações, seminários e debates.

Concretamente, essas intervenções extensionistas da UFPE na comunidade materializaram-se por meio de quatro projetos de extensão com ações distintas e complementares: Gestão e Processos Comunicacionais no Coque (realizado em 2006), Rede de Agentes de Educomunicação Solidária (realizado em 2007), Programa de Formação de Agentes de Mediação Sociocultual (em execução em 2008) e Rede de Comunicação, Educação e Cultura: Filhos e Filhas do Coque (em execução em 2008). O primeiro projeto inicial introduziu a discussão sobre como os jovens do Coque podem assumir um papel mais ativo na construção da sua própria imagem, não apenas adotando uma atitude mais propositiva frente aos jornalistas e à própria comunidade, mas também explorando meios de difusão alternativos como rádio e vídeo, jornal online, texto e fanzine, fotografia e grafitagem. O processo de formação desses jovens teve continuidade no projeto Rede de Agentes de Educomunicação Solidária (ainda em 2007), apoiado com recursos do edital MEC/SeSu/Depem PROEXT 2006-2007. Hoje, temos 40 alunos sendo capacitados na rede de agentes, a partir de uma turma básica e outra avançada, e cerca de outros 125 jovens diretamente influenciados pelas ações do projeto em curso, através das outras instituições e entidades atuantes no bairro.

Por meio das ações já delineadas, o objetivo da presença da universidade no Coque é empreender um processo contínuo de formação conceitual e técnica, até a constituição de um grupo de agentes capaz de produzir conteúdos e gerir autonomamente uma plataforma de comunicação que se pretende implantar, a médio prazo, na comunidade. Entendida na sua acepção mais ampla, a comunicação é tratada nos projetos de extensão como um meio de transformação ao propiciar, a partir da disponibilização das mais distintas formas de expressão, a construção de memória, assim como a produção e difusão de auto-representações e representações sociais mais positivas. O reconhecimento identitário, o estímulo ao sentimento de pertencimento à comunidade, a motivação para intervenções coletivas estão, nesse contexto, diretamente associados a ações que estimulem, viabilizem e capacitem formas de protagonismo juvenil. A ênfase dada pelas ações da Universidade nas questões identitárias justifica-se pela dificuldade, evidenciada na atuação desses dois anos, dos próprios jovens da comunidade em reconhecer seu pertencimento ao Coque. Pressionados pelo preconceito de que são objeto, muitos jovens tendem a se desvalorizar e a tentar “esconder”, ou mesmo a tentar “esquecer”, através de mecanismos de dissociação, seus vínculos com o bairro. “Do Coque, todos querem distância”, testemunham os moradores e esse sentimento observa-se até mesmo entre os jovens nascidos ali que, não raro, desejam tão somente deixar o lugar.

A formação oferecida aos jovens do Coque tem como carro-chefe o Curso de Agentes de Comunicação Solidária, iniciado ainda dentro do projeto Gestão de Processos Comunicacionais no Coque. A capacitaçãO proposta pelos estudantes e profesSores da UFPE somou-se a uma formação mais geral oferecida pelo próprio NEIMFA (em direitos humanos, políticas públicas etc.). Uma parte dos jovens integrantes do MABI já havia sido formada pelo NEIMFA. Segundo Neto (2007, p. 43) O objetivo da intervenção do Departamento de Comunicação da UFPE se daria, inicialmente, na desconstrução de uma imagem negativa do bairro e re-construção de uma imagem positiva, para além da violência repetida pelas mídias. Essa primeira iniciativa extensionista tinha ainda uma proposta e uma concepção muito próxima daquilo que era visto na própria universidade. Temas como a construção da notícia, o papel da fonte, a análise crítica das mídias e, inclusive, a apropriação do lead jornalístico (O quê? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê?) davam a tônica dessa primeira formação. Partindo do pressuposto de que o potencial de mobilização e o sentimento de pertencimento à comunidade identificados no MABI eram comuns a toda a comunidade, o primeiro curso, que teve duração de quatro meses, foi marcado por uma imensa ‘falha de comunicação’, como relata Neto (2007, p. 45):

“Quando fomos conhecendo o nossos agentes de comunicação solidária fomos vendo que eles estavam muito mais interessados em um emprego, em um curso de informática ou em soluções rápidas para seus problemas de subsistência. E nós, ao passo que constatávamos esses desejos dos nossos jovens, nos fazíamos de surdos e desviávamos a discussão para a educação para as mídias, para a influência da tevê, o papel do jornalista, etc. Se observarmos as grades propostas como diretrizes metodológicas do curso de Agentes, vamos vendo que elas vão se modificando, ganhando observações, asteriscos, interrogações. Esses ‘pontos de abertura’ sinalizado nos documentos do projeto constatam o seu inacabamento por um lado, e por outro nossa própria presunção de acreditar que um tema tão precioso a nós, a educação para as mídias, seria facilmente compreendido pela ‘comunidade’…”.

A falta de uma melhor compreensão do perfil, das ambições e motivações dos jovens participantes da capacitação foi provavelemente a principal responsável por uma das frustações da equipe ao término do projeto Gestão de Processos Comunicacionais bo Coque. Não conseguimos, como pretendíamos, produzir conteúdos para as mídias digitais. O curso termina sem a almejada construção de um jornal on-line sobre o bairro, numa plataforma piloto de comunicação desenvolvida pelo Laboratório Virtus da UFPE. Entretanto, longe de destruir o ‘encanto’ os resultados aquém do esperado estimularam uma reformulação das atividades, focando em outras vivências necessárias prévias à produção de conteúdos para meios de comunicação alternativos. Era preciso, antes, investir mais na formação crítica dos eventuais agentes de comunicação do Coque. Graças a um financiamento do Ministério da Educação, através da Secretaria de Ensino Superior (edital MEC/SESu/Depem 2006-2007), a continuidade da ação no Coque foi assegurada pelo segundo projeto de extensão, amplando as ações do anterior,, que foi realizado sem qualquer finaciamento institucional.

Como sinal da abertura de diálogo com seus ‘pares’, os novos projetos passam a incorporar as perspectivas de construção de memória e políticas públicas em educação trabalhadas pelo NEIMFA. Na prática, isso significava a incorporação de novos módulos ao curso, bem como um circuito de mobilização nas escolas (Coque Vive) com o objetivo de problematizar as representações sociais que atuam sobre o Coque, e o papel da mídia no seu fortalecimento, numa abordagem mais direta. Em vez de uma turma, como estava ajustado no projeto encaminhado ao MEC/SESu/Depem, o projeto acabou por desdobrar-se incorporando mais uma turma “básica” enquanto os alunos remanescentes do primeiro projeto compunham a turma “avançada”. Nessa etapa, foram oferecidas aos jovens das duas turmas oficinas de capacitação técnica, tais como: fotografia, rádio comunitária, vídeo, produção de fanzines, grafitagem, mídias digitais.

A grade formatada para a turma básica ia ainda mais longe na tentativa de fortalecer as noções de pertencimento e protagonismo juvenil, a maior parte das metodologias foi revista a fim de valorizar as expressões dos jovens e expandir os conteúdos e formas de expressão trabalhados para além da comunicação midiática (trabalhando a noção de linguagem, as relações entre discurso e ideologia, incorporando o teatro, a grafitagem). As ‘dimensões afetivas’ que o projeto vai ganhando são detalhadas por Neto (p.49): “No primeiro projeto de Processos Comunicacionais, não havíamos podido conhecer, de fato, o universo dos nossos jovens, havíamos, apenas, apresentado o nosso mundo, cheio de vontades de discutir e criar alternativas aos grandes meios de comunicação. No segundo projeto, Agentes de Educomunicação Solidária, nós pudemos ouvir, ver e sentir mais as representações dos nossos jovens. E a partir delas, podíamos iniciar uma conversa, perguntar qual era o caminho até aquela foto, aquele programa de rádio, aquele texto, aquela grafitagem. [...] Começamos a compreender que o encontro, ele mesmo, traz desdobramentos não planejados e inclui abrir-se para o outro, ouvir as notícias do seu mundo.”.

Nessa nova etapa das ações no Coque, porém, em função de problemas institucionais e operacionais , a plataforma de comunicação do Virtus não estava mais disponível para o uso dos agora agentes de educomunicação solidária. O interesse em ocupar a rede se manteve e, na oficina de mídias digitais, o foco passou a ser a produção de blogs, e não mais de um jornal on line. A oficina de “mídias digitais” passou a ser uma designação genérica para todo o esforço dos monitores do projeto de extensão de estimular os jovens do Coque a usar a rede para se expressar. Nenhuma forma de levar os conteúdos produzidos pelos Agentes para a rede estava descartada a priori. A internet funcionaria como um ‘ponto de fuga’ para a difusão de conteúdo do grupo de Agentes, tendo em vista que as chances de ações como o jornal Coque (publicação impressa com tiraem de 2 mil exemplares) se repetirem eram mínimas em função ao alto custo de produção dos meios tradicionais.

Ao longo de 2007, o projeto Rede de Agentes de Educomunicação Solidária foi desenvolvendo uma série de atividades nas áreas de Comunicação, Educação e Cultura, tendo como ponto de culminância os Circuitos de Mobilização “Coque Vive”. Esses eventos problematizaram as representações sociais do Coque em ações realizadas nas escolas públicas da comunidade, na Universidade e no Centro Cultural Brasil-Alemanha. Valendo-se de exposições de fotografia, exibições teatrais e musicais, oficinas de fotografia, fanzine, literatura e leitura crítica das mídias, debates entre outras. Os jovens do Coque participaram lado a lado com os universitários que compõem a equipe do projeto, assumindo funções de monitoria e realização das oficinas. Coube ao MABI as apresentações musicais e as oficinas de literatura. Os integrantes do NEIMFA, por sua vez, ofereceram oficinas com temáticas relacionadas com a qualidade de vida. A realização dos circuitos chegou a substituir um dos dias letivos numa das escolas participantes, incorporando as escolas à rede de promoção social que vem se instituindo a partir das ações extensionistas no Coque e que inclui a Igreja, os movimentos sociais e a própria universidade.

Articulada com a intervenção nas escolas, o circuito de mobilizações “coque Vive” realizou ainda uma grande passeata no bairro, denominada “Paz no Coque”, com o objetivo de denunciar a violência policial contra moradores do bairro, inclusive contra integrantes do próprio MABI.

Toda esta movimentação na comunidade repercutiu num agendamento positivo da comunidade nos grandes veículos de comunicação. As inserções sobre o Coque começaram a se diversificar, saindo das “páginas policiais”, hora com ajuda de antigos colaboradores, que pautavam a comunidade em seus estágios, hora de modo “independente”. Indícios dessa nova abordagem são matérias da rede Globo e do Canal Futura nas quais o Coque salta do papel de vilão para o de vítima. As reportagens mais significativa em termos de agendamento positivo da comunidade foram, no entanto, veiculadas pela TV jornal em sua série especial “Coque: um novo olhar”, um conjunto de cinco reportagens – abertamente inspirada no jornal Coque – com enfoques diferenciados sobre a comunidade.

Ainda que uma ressignificação da imagem da comunidade esteja em curso nos meios tradicionais (e em seus espelhamentos no mundo virtual), esta não se dá ainda a partir de iniciativas autônomas por parte dos grupos comunitários do Coque, especialmente nos meios digitais, que sempre mereceram atenção nos propjetos de extensão da UFPE

A propagada liberdade de expressão inerente à internet não é uma realidade nem mesmo para os jovens que foram estimulados ao uso da rede nas capacitações oferecidas pelos estudantes de Comunicação da UFPE. Convencidos da importância da rede na difusão de conteúdos e com o objetivo de contribuir com o processo de ‘colonização’ da internet pelos movimentos sociais do Coque, os projetos a serem desenvolvidos em 2008 apostam, agora, na implantação de Estação Digital de Difusão de Conteúdos, a partir de uma estação de trabalho (computadores conectados à internet) montada na ONG NEIMFA

A pretensão, nesta etapa, é investir na “ocupação” da rede virtual com conteúdos gerados sobre o Coque, ou a partir do Coque, em meio digital. A proposta é, a partir da qualificação em mídia digital oferecida, constituir grupos de trabalho formados por jovens universitários e jovens da comunidade para: 1) criação de blogs ou alimentação de blogs já existentes com conteúdos pautados pela Rede de Comunicação, Educação e Cultura; 2) inserção de jovens do Coque em comunidades virtuais nas quais possam agendar o debate sobre o bairro (orkut, flickr, wikipedia, entre outros), assim como inserção de conteúdo em redes colaborativas; 3) criação de “mapas afetivos” do Coque na rede, entre outras iniciativas. Paralelamente a essa ações, o projeto promoverá articulações com vistas ao registro em meio digital da produção das bandas de rock do Coque para posterior disponibilização e difusão na rede por meio de podcasts, por exemplo.

Essa Estação Digital é tanto um incentido quanto um reflexo da esperança numa apropriação mais significativa da rede pelos jovens do Coque, o que não conseguimos até aqui. O ânimo para criação da Estação Digital vem não tanto dos resultados conseguidos ao longo do ano de 2007, mas sim das leituras que as experiências já permitem. Não foi possível, mais um vez, publicar conteúdo de caráter jornalístico, seja em blogs, seja em plataforma específica, entretanto, a oficina de mídias digitais realizada com esta finalidade, acabou permitindo ao grupo da universidade perceber formas alternativas de posicionamento na rede, que contribuiriam de modo “colateral” para a construção de representações mais positivas. Um exemplo disso foram as intervenção em plataformas abertas de comunicação (a discussão aberta no verbete “Coque” da wikipedia) e o próprio blog do projeto. O caminho está aberto, mas é preciso ainda investir na formação e sensibilização para uso dos meios digitais.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

  • VALE NETO, J. P. Coque, a morada do vínculo. Trabalho de conclusão de curso apresentado em 11/09/2007.
  • SILVA, ANA CAROLINA DE SENNA MELO E. O que eles diriam, se não estivéssemos surdos de medo? Um estudo sobre o potencial da comunicação comunitária na prevenção da violência juvenil. Trabalho de conclusão de curso apresentado em 2007

DOCUMENTOS UTILIZADOS

  • MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO/SECRETARIA DE ENSINO SUPERIOR – Rede de Agentes de Educomunicação Solidária 2006-2007. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/sesu/index.php?option=content&task=view&id=442&Itemid=303
  • MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO/SECRETARIA DE ENSINO SUPERIOR – Programa de Formação de Agentes de Mediação Socio cultural 2007-2008. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/sesu/index.php?option=content&task=view&id=442&Itemid=303
  • PROGRAMA BNB DE CULTURA – Biblioteca Popular do Coque, 2006. Disponível em: http://www.bnb.gov.br/content/aplicacao/eventos/Programa_BNB_Cultura_2008/gerados/

informacoes.asp

  • PROEXT PETROBRAS – Rede de Comunicação, Educação e Cultura: Filhas e Filhos do Coque, 2007. Disponível em: http://www.ufsj.edu.br/Pagina/videx/programa_de_apoio_a_cultura.php
  • PROEXT/UFPE – Rede de Agentes de Educomunicação Solidária, 2007-2008. Disponível em:

http://www.proext.ufpe.br/noticias/2007/julho/dia06.01%20-%20Resultado%20BEX.html

  • PROEXT/UFPE — Processos Comunicacionais no Coque, 2006. Disponível em: http://www.proext.ufpe.br/projetos_extensao2006.html

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