
Coque, discriminação até na Intenet
Se a rede já se constitui em uma poderosa ferramenta para os movimentos sociais na busca por visibilidade e por “voz”, nas situações em que uma comunidade luta para desfazer preconceitos difundidos pelas grandes mídias, a Internet pode ser um aliado ainda mais precioso. É preciso ocupar a rede com novos conteúdos, parece possível interferir por meio dela na formação das opiniões, é desejável que esse espaço seja usado não apenas pela minorais, mas também por uma maioria silenciosa que desconhece inclusive seu potencial. É ainda mais urgente esse uso quando o tratamento discriminatório em relação a um determinado grupo, segmento ou comunidade pode ser observado até na Internet, como ocorre no caso do Coque.
Na wikipedia – a maior enciclopédia de conteúdo livre do mundo, editável e criado pelos próprios usuários – o verbete “Coque” não tem mais que 900 caracteres (http://pt.wikipedia.org/wiki/Coque), e nenhum deles faz referência à comunidade situada entre Afogados e Santo Amaro. O verbete existe apenas em português, e havia sido modificado no primeiro semestre de 2007 pelos alunos do Curso de Formação de Agentes de Educomunicação Solidária. O verbete agora trata do carvão betuminoso de mesmo nome utilizado desde o século XVII para a obtenção de ferro. O verbete está na categoria esboço sobre combustíveis e não existe uma página de desambiguação, como é comum para situações deste tipo, pois não existe um verbete “comunidade do Coque”.
Por outro lado, O Coque não só conta com um verbete próprio na desciclópédia – que se pretende “a enciclopédia livre de conteúdo” – como ainda é mencionado, no verbete sobre Boa Viagem, por sua pretensa semelhança com a comunidade do “Entra a pulso”, uma favela localizada no coração de Boa Viagem que, assim como o vizinho incômodo,é considera “antro de marginais”, “esconderijo de traficantes”. Longe de livre de conteúdo, o verbete da desciclopédia é a condensação de todos os estereótipos que recaem sobre o Coque (http://desciclo.pedia.ws/wiki/Coque).
O Coque vem perdendo a batalha por uma representação social positiva também na Internet. Apesar do incontestável sucesso dos projetos de extensão da UFPE no Coque em pautar a grande mídia, emplacando um número significativo de matérias que valorizam outros aspectos que não a violência, ainda não conseguimos mobilizar os jovens do Coque para tirar prometido do meio digital. Em posts de blogs, em sites colaborativos ou em comunidades virtuais, a ausência dos próprios moradores do Coque, ou sua inabilidade em se expressar/afirmar como moradores da comunidade, abre espaço para que continue, também na rede, o processo de ‘demonização’ que já vinha sendo realizado em veículos de comunicação menos aberto. Um exemplo disso são comentários como o do blog “Acerto de contas“, um dos mais prestigiados localmente. Na época do anúncio da construção da nova sede da OAB, no Coque, era possível ler no blog comentários do tipo: ” No Coque? Ou é brincadeira de mau gosto ou é enredo de filme de terror. Coitado dos advogados…!”
A ausência das “vozes da comunidade” do Coque na rede é bem fácil de constatar por meio de buscas simples. Há apenas quatro retornos para “Coque” (contra 1.373 para “Boa Viagem” + Recife e 162 para Afogados + Recife) e nenhum para ‘comunidade + Coque’, no Technorati – o maior serviço de buscas por conteúdos em blogs. Nenhum dos posts retornados remete à comunidade do Coque (apesar da existência do blog do grupo dos Agentes de Educomunicação Solidária (www.coquevive.wordpress.com), O “site oficial” relacionado à comunidade do Coque no Orkut está “em manutenção” (http://www.coquenet.hpg.com.br/) e a própria comunidade tem apenas 214 membros, cujo movimento é de, em média, um post por mês.
Exemplo da predominância da imagem negativa da comunidade no imaginário recifense, mesmo da rede, é também o caso do CITIX – City Information Exchange Network, uma iniciativa do CESAR (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife) em parceria com o Ministério Público Federal, que pretende ser “um ambiente de troca de informação sobre cidades (…) uma rede social de localização e compartilhamento de informação sobre eventos, lugares, instituições, segurança e serviços públicos” (http://www.citix.net/pages/start). Ainda antes de ser lançado ao público, o serviço já contava com uma Tag – anotação eletrônica, como uma ficha de classificador – descrevendo o Coque como “o caminho mais perigoso entre Torre/madalena e Boa Viagem”.
(http://www.citix.net/post/2007/12/12/639/tentativa_de_assalto_permanente/).
Longe de negar a ocorrência, ou de minimizar a violência na comunidade, o que nos interessa perceber é que dos eventos na categoria “segurança e prevenção de crimes” listados este foi um dos únicos em que o “denunciante” sentiu necessidade de anunciar a localidade (“bem vindo ao Coque”), mesmo o serviço rodando por sobre um mapa eletrônico da Google. A outra referência à localidade nos relatos diz respeito a um assalto em um sinal na praça Agamenom Magalhães e assume um tom de “lead” jornalístico (“assalto em sinal de trânsito; praça Agamenom Magalhães, av norte; rapaz aparentando 18 anos…”).
oi